UNIVERSIDADE FEDERAL DO PAMPA CAMPUS SANT?ANA DO LIVRAMENTO CURSO DE CIÊNCIAS ECONÔMICAS FERNANDA RIBEIRO MARTINS RAMOS A DINÂMICA DE COMERCIALIZAÇÃO DE PRODUTOS DOS EMPREENDIMENTOS ECONÔMICOS SOLIDÁRIOS (EES) NO MUNICÍPIO DE SANT?ANA DO LIVRAMENTO -RS Sant?Ana do Livramento 2024 FERNANDA RIBEIRO MARTINS RAMOS A DINÂMICA DE COMERCIALIZAÇÃO DE PRODUTOS DOS EMPREENDIMENTOS ECONÔMICOS SOLIDÁRIOS (EES) NO MUNICÍPIO DE SANT?ANA DO LIVRAMENTO -RS Trabalho de Conclusão de Curso apresentado ao Curso de Ciências Econômicas da Universidade Federal do Pampa, como requisito parcial para obtenção do Título de Bacharel em Ciências Econômicas. Orientador: Prof. Dr. Altacir Bunde Sant?Ana do Livramento 2024 Ficha catalográfica elaborada automaticamente com os dados fornecidos pelo(a) autor(a) através do Módulo de Biblioteca do Sistema GURI (Gestão Unificada de Recursos Institucionais) R175d Ramos, Fernanda Ribeiro Martins A dinâmica de comercialização de produtos dos empreendimentos econômicos solidários (EES) no município de Sant'Ana do Livramento -RS / Fernanda Ribeiro Martins Ramos. 65 p. Trabalho de Conclusão de Curso(Graduação) -- Universidade Federal do Pampa, CIÊNCIAS ECONÔMICAS, 2024. "Orientação: Altacir Bunde". 1. Economia Solidária. 2. Empreendimentos Econômicos Solidários. 3. Comércio Justo. 4. Santana do Livramento. I. Título. FERNANDA RIBEIRO MARTINS RAMOS A DINÂMICA DE COMERCIALIZAÇÃO DE PRODUTOS DOS EMPREENDIMENTOS ECONÔMICOS SOLIDÁRIOS (EES) NO MUNICÍPIO DE SANT?ANA DO LIVRAMENTO -RS Trabalho de Conclusão de Curso apresentado ao Curso de Ciências Econômicas da Universidade Federal do Pampa, como requisito parcial para obtenção do Título de Bacharel em Ciências Econômicas. Trabalho de Conclusão de Curso defendido e aprovado em 27 de junho de 2024. Banca examinadora: ______________________________________________________ Prof. Dr. Altacir Bunde Orientador (UNIPAMPA) ______________________________________________________ Prof.ª Dr.ª Alessandra Troian (UNIPAMPA) ______________________________________________________ Prof. Me. Igor de Menezes Larruscaim (UNIPAMPA) Dedico esse trabalho a minha avó, Alaides Ribeiro (in memoriam). AGRADECIMENTO S Em primeiro lugar, expresso minha gratidão a Oxalá pela dádiva da minha existência e por ter me auxiliado a superar todos os desafios que surgiram em meu caminho. Ao rei, pai Xangô, dono do meu Orí, pois sem a sua proteção e força, eu não teria a determinação necessária para enfrentar os obstáculos que surgem ao longo da jornada. Sou grata também à mãe Oxum, que me acolhe, conduz e protege, a Exú, guardião dos caminhos que sempre me guia durante a caminhada, e a todos os meus ancestrais, meus Orixás, por terem me concedido saúde e persistência para não desanimar durante a realização deste trabalho. Agradeço aos meus pais, João Antônio e Cleuza, pelo amor incondicional que me dedicam. Sem o apoio e carinho de vocês, nada do que alcancei seria possível. São a minha fonte principal de inspiração, obrigada por todo apoio e suporte. Agradeço à Universidade Federal do Pampa por me proporcionar uma educação superior de qualidade e aos excelentes professores que compartilharam seus conhecimentos. Em especial, à professora Dra. Alessandra Troian, pelos conselhos, palavras de encorajamento e por me fazer acreditar em meu potencial. Agradeço imensamente ao meu orientador, Professor Dr. Altacir Bunde, por confiar na minha pesquisa, pela orientação, compreensão, apoio e paciência ao longo desse período de escrita. Agradeço aos meus amigos, especialmente Camila Aguiar, Vanessa Prates e Francisco Amaro, pelo afeto, amizade e cumplicidade que demonstram ao estarem sempre presentes quando preciso. Sou grata pelos momentos difíceis que, sempre que necessário, enfrentam juntos a mim e pelas vitórias que celebram e compartilham comigo. E por último e não menos importante, agradeço a todos os envolvidos que contribuíram de alguma forma para que eu pudesse realizar essa pesquisa, que agregaram e compartilharam informações necessárias para responder esse estudo. ?Uma economia que não se preocupa com justiça social é uma economia que condena os povos a isso que está acontecendo no mundo: uma brutal concentração de renda e de riqueza, o desemprego e a miséria?. (Maria da Conceição Tavares) RESUMO A economia solidária é um formato de organização de trabalho autogestionário que tem como princípio a solidariedade. Consiste em uma ampla gama de práticas que visam novas alternativas para inclusão e desenvolvimento social. Os empreendimentos econômicos solidários (EES) são uma das práticas dentro da economia solidária que preza pelo comércio justo, onde a figura humana está acima dos interesses do capital. Neste contexto, o objetivo do presente estudo buscou estudar a dinâmica de comercialização de produtos dos empreendimentos econômicos solidários (EES) no município de Santana do Livramento-RS. Em específico, buscou-se: descrever a origem e desenvolvimento da economia solidária em Santana do Livramento-RS; identificar as diferentes formas e a dinâmica de comercialização de produtos oriundos dos EES em Santana do Livramento - RS e apontar as potencialidades e entraves encontrados no acesso ao mercado pelos EES em Santana do Livramento-RS. Metodologicamente, a pesquisa se caracteriza como uma abordagem qualitativa utilizando o método indutivo. Foi realizado um estudo de caso elaborado por meio de entrevistas com os membros dos EES, observações da dinâmica de comercialização, análise de documentos, revisão da literatura, e busca de fontes e dados com informações sobre o caso. Como resultado, identifica-se que a dinâmica de comercialização que predomina é a venda direta ao consumidor, seja na Casa da Economia Solidária, por meio de participação em feiras e eventos ou venda direta aos consumidores, um processo que evidencia as características presente nas formas no comércio justo. Palavras-chave: Economia Solidária; Empreendimentos Econômicos Solidários; Comércio Justo. ABSTRACT The economy is a self-managed work organization format that has solidarity as its principle. It consists of a wide range of practices that aim at new alternatives for inclusion and social development. Solidarity economic enterprises (EES) are one of the practices within the solidarity economy that values fair trade, where the human figure is above the interests of capital. In this context, the objective of this study sought to study the dynamics of marketing products from solidarity economic enterprises (EES) in the municipality of Santana do Livramento-RS. Specifically, we sought to: describe the origin and development of the solidarity economy in Santana do Livramento-RS; identify the different forms and dynamics of commercialization of products from the EES in Santana do Livramento-RS and point out the potentialities and obstacles found in access to the market by the EES in Santana do Livramento- RS. Methodologically, the research is characterized as a qualitative approach using the inductive method. A case study was carried out through interviews with members of the EES, observations of marketing dynamics, document analysis, literature review, and search for sources and data with information about the case. As a result, it is identified that the predominant marketing dynamic is direct sales to consumers, whether at the Solidarity Economy house, through participation in fairs and events or direct sales to consumers, a process that highlights the characteristics present in the forms in fair trade. Keywords: Solidarity Economy. Solidarity Economic Enterprises; Fair Trade. LISTA DE FIGURAS Figura 1 ? Entrada da Casa de Economia Solidária. ................................................................ 35 Figura 2 ? Fachada da Casa de Economia Solidária na Rua Rivadávia Corrêa. ...................... 35 Figura 3 ? Artesanatos produzidos pelo Empreendimento Mulher que Faz disponíveis para venda. ........................................................................................................................................ 35 Figura 4 ? Artesanatos confeccionados pelo Empreendimento Mulher que Faz .................... 36 Figura 5 ? Produtos do Empreendimento Justa Trama disponíveis para a venda na Casa de Economia Solidária. ................................................................................................................. 36 Figura 6 ? Produtos confeccionados pelo Empreendimento Mulher que Faz disponíveis para venda. ........................................................................................................................................ 36 Figura 7 ? Produtos do Empreendimento Teares do Sul no Evento Binacional de Enogastronomia em Santana do Livramento-RS (2023). ......................................................... 37 Figura 8 ? Produtos do Teares do Sul expostos na Casa da Economia Solidária disponíveis para venda. ........................................................................................................................................ 37 Figura 9 ? Geleias e molhos prontos para comercialização disponíveis na casa da economia solidária, produzidos pelo EES Legado. ................................................................................... 38 Figura 10 ? Produtos do EES Legado disponíveis para venda na Feira da Agricultura Familiar, Agroindústrias e Economia Solidária. ...................................................................................... 38 Figura 11 ? Produtos produzidos pelo EES Saboaria da Ecosol. ............................................. 39 Figura 12 ? Produtos produzidos pelo EES Saboaria da Ecosol expostos na Feira da Agricultura Familiar, Agroindústrias e Economia Solidária. ...................................................................... 39 Figura 13 ? Feira Estadual de Economia Popular Solidária, Porto Alegre- RS. ...................... 40 Figura 14 ? Artesanatos confeccionados na casa da economia solidária em Santana do Livramento-RS. ........................................................................................................................ 40 Figura 15 ? Participação da Casa de Economia Solidária na Feira Estadual de Economia Popular Solidária de Porto Alegre-RS. .................................................................................................. 41 Figura 16 ? Participação da Casa de Economia Solidária na Feira Internacional do Cooperativismo e da Economia Solidária (FEICOOP) em Santa Maria-RS............................ 41 Figura 17 ? Participação da Casa de Economia Solidária na feira (FEICOOP) em Santa Maria- RS. ............................................................................................................................................ 41 Figura 18 ? Participação da Casa de Economia Solidária na feira (FEICOOP) em Santa Maria- RS. ............................................................................................................................................ 41 Figura 19 ? Participação no Evento Binacional de Enogastronomia em 2023. ....................... 43 Figura 20 ? Feira realizada na Rua Treze de Maio em 2023. ................................................... 43 Figura 21 ? Placa colocada no local da Feira da Agricultura Familiar, Agroindústrias e Economia Solidária (2022). ...................................................................................................... 46 Figura 22 ? Cartaz de divulgação da Feira da Agricultura Familiar, Agroindústrias e Economia Solidária (2019). ....................................................................................................................... 46 Figura 23 ? Feira da Agricultura Familiar, Agroindústrias e Economia Solidária de Santana do Livramento-RS (2024). ............................................................................................................. 46 Figura 24 ? Produtos expostos por EES do município na Feira da Agricultura Familiar, Agroindústrias e Economia Solidária (2024). .......................................................................... 46 Figura 25 ? Biscoitos comercializados Feira da Agricultura Familiar, Agroindústrias e Economia Solidária de Santana do Livramento-RS (2023). .................................................... 47 Figura 26 ? Produtos alimentícios comercializados Feira da Agricultura Familiar, Agroindústrias e Economia Solidária, Santana do Livramento-RS (2019). ............................. 44 Figura 27 ? Produtos comercializados Feira da Agricultura Familiar, Agroindústrias e Economia Solidária, Santana do Livramento-RS (2023). ........................................................ 47 Figura 28 ? Verduras e legumes comercializados Feira da Agricultura Familiar, Agroindústrias e Economia Solidária, Santana do Livramento-RS (2019). ..................................................... 47 Figura 29 ? Frutas e legumes comercializados Feira da Agricultura Familiar, Agroindústrias e Economia Solidária, Santana do Livramento-RS (2017). ........................................................ 48 Figura 30 ? Produtos comercializados Feira da Agricultura Familiar, Agroindústrias e Economia Solidária, Santana do Livramento?RS (2019). ........................................................ 48 Figura 31 ? Material de divulgação da ACNH produzido com o apoio de algumas entidades. .................................................................................................................................................. 50 Figura 32 ? Sede da ACNH no bairro Divisa, em Santana do Livramento-RS. ...................... 50 Figura 33 ? Interior da sede da ACNH. .................................................................................... 50 Figura 34 ? Carregamento de material reciclável vendido pela ACNH. .................................. 51 LISTA DE QUADROS Quadro 1 ? Síntese dos Procedimentos Metodológicos e Técnicas de Coleta ......................... 23 Quadro 2 ? Número de Empreendimentos Econômicos Solidários Existentes no Município de Santana do Livramento-RS em 2024. ....................................................................................... 31 Quadro 3 ? Características dos Empreendimentos Solidários de Santana do Livramento-RS .................................................................................................................................................. 33 LISTA DE ABREVIATURAS E SIGLAS ACNH Associação de Catadores Novo Horizonte CNPJ Cadastro Nacional de Pessoa Jurídica CONAQ Coordenação Nacional de Articulação das Comunidades Negras Rurais Quilombolas ECOSOL Casa de Economia Solidária de Santana do Livramento EES Empreendimentos Econômicos Solidários EMBRAPA Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária EPIs Equipamentos de Proteção Individual FBES Fórum Brasileiro de Economia Solidária FEICOOP Feira Internacional do Cooperativismo e da Economia Solidária IFSul Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia Sul-Rio-Grandense MEI Microempreendedor Individual SINDISAUDE Sindicato de Saúde do município de Santana do Livramento-RS UERGS Universidade Estadual do Rio Grande do Sul UNIPAMPA Universidade Federal do Pampa UNISOL Central de Cooperativas de Empreendimentos de Economia Solidária SUMÁRIO 1. INTRODUÇÃO .................................................................................................................. 15 1.1. Objetivos ............................................................................................................................ 17 1.1.1. Objetivo Geral ............................................................................................................... 17 1.1.2. Objetivos Específicos .................................................................................................... 17 1.2. Justificativa ....................................................................................................................... 17 2. METODOLOGIA .............................................................................................................. 19 3. REVISÃO BIBLIOGRÁFICA .......................................................................................... 24 3.1. Economia Solidária: diferentes conceitos ......................................................................... 24 3.2. Comércio Justo, Consumo Consciente e Economia Solidária .......................................... 27 4. RESULTADOS E DISCUSSÕES .................................................................................... 30 4.1. Breve Histórico Sobre a Origem e Desenvolvimento da Economia Solidária em Santana do Livramento-RS ................................................................................................................... 30 4.2. Diferentes Formas e a Dinâmica de Comercialização de Produtos Oriundos dos Empreendimentos Econômicos Solidários Existentes em Santana do Livramento-RS .......... 32 4.2.1. Casa de Economia Solidária .......................................................................................... 34 4.2.2. Associação Teares do Sul .............................................................................................. 36 4.2.3. Grupo Legado ................................................................................................................ 37 4.2.4. Saboaria da Ecosol ......................................................................................................... 38 4.2.5. Mulher que Faz .............................................................................................................. 39 4.2.6. Agroindústria Sabores do Campo .................................................................................. 41 4.2.7. Associação Remanescente Quilombola do Ibicuí da Armada ........................................ 43 4.2.8. Feira da Agricultura Familiar, Agroindústrias e Economia Solidária ........................... 44 4.2.9. Associação de Catadores Novo Horizonte (ACNH) ...................................................... 48 4.2.10. As Dinâmicas dos EES Santanenses ........................................................................... 51 4.3. Algumas Potencialidades e Alguns Entraves dos EES do município de Santana do Livramento-RS ........................................................................................................................ 56 5. CONSIDERAÇÕES FINAIS ............................................................................................. 60 REFERÊNCIAS ..................................................................................................................... 62 15 1 INTRODUÇÃO O capitalismo, mesmo com sua hegemonia, não veda o desenvolvimento de outros meios de produção porque não possibilita a inclusão de toda população economicamente ativa. Neste sentido, a economia solidária surge em função das crises sociais, onde a competição desmedida dos capitais privados, despertada periodicamente em cada país, gera uma alternativa ao capitalismo, especialmente quando parte dessa população que não possui capital toma ciência da importância de organizar-se de forma que os meios de produção sejam de todos os que operam para gerar produto social (Singer, 2002). O desenvolvimento das experiências de economia solidária está entrelaçado num conjunto de transformações que vêm ocorrendo e reconfigurando o social. Em um quadro de crise do trabalho assalariado, estudiosos identificaram, a partir do ano de 1980, um conjunto de movimentos compostos por trabalhadores que perderam seus empregos e aqueles que viveram sempre à margem da informalidade, a formação de cooperativas de trabalho e a busca pela autogestão, essa prática vem sendo conhecida como economia solidária (Leite, 2009). No Brasil, durante a década de 1990, como consequência da democratização e do direito da livre associação, surgiram vários grupos populares em organizações de cooperativismo e associativismo. Os Empreendimentos Econômicos Solidários (EES) são atividades econômicas que tecnicamente não visam lucro porque são a junção de pessoas e não de capital, visam disponibilizar aos seus integrantes a chance de superar as limitações do trabalho, principalmente dos grupos com poucos recursos (Silva, 2017). Conforme a Conferência Nacional de Economia Solidária realizada em 2006 e 2010, em seu documento final 1 , designou economia solidária como um modo de produção, consumo e distribuição que tem como pilar a igualdade dos direitos e a responsabilidade de todos os participantes dos EES. Os meios de produção, bens e/ou serviços produzidos em cada empreendimento são de controle, gestão e propriedade coletiva dos participantes. Segundo Nagem e Silva (2013), de forma geral podemos definir a economia solidária como um conjunto de atividades que ajudam na democratização econômica com a participação dos indivíduos e suas organizações coletivas de trabalho. No entanto, o EES não é somente 1 BRASIL. Ministério do Trabalho e Emprego. Secretaria Nacional de Economia Solidária. Documento final da I Conferência Nacional de Economia Solidária: ?Economia Solidária como Estratégia e Política de Desenvolvimento?. Brasília, 26 a 29 de junho de 2006. Disponível em: https://www.ipea.gov.br/participacao/images/pdfs/conferencias/Economia_Solidaria/deliberacoes_1_conferencia _economia_solidaria.pdf. Acesso em: 12 jun. 2024. 16 uma alternativa econômica, ele também tem relação com a política e sociedade, no entanto, sua sustentabilidade econômica é indispensável (Schutz, 2008). Em Santana do Livramento-RS, segundo Luz et al. (2016), as primeiras iniciativas de economia solidária surgiram em 2005. Posteriormente, foi organizada, em 2007, a primeira feira municipal de economia solidária do município, realizada na Praça General Osório, que contou com o apoio da Prefeitura Municipal e do Sindicato da Saúde do município, o SINDISAUDE. A partir deste ano, deu-se início a organização dos empreendimentos econômicos solidários (EES) no município com objetivo de se aprofundar no estudo do tema e planejar feiras futuras. Em 2008, foi realizada a primeira Feira Binacional da economia solidária que envolveu EES do Brasil e do Uruguai promovido na Praça Internacional. Os EES em Santana do Livramento-RS adotam diferentes formas de comercialização, buscando diversificar os canais de venda e alcançar um maior número de consumidores. Segundo Bunde (2019), em Relatório de atividades do Projeto de incubação de empreendimentos econômicos solidários (EES) na Fronteira da Paz ? Santana do Livramento- RS. Chamada CNPq/MTb-SENAES Nº 27/2017. Santana do Livramento, 2019, alguns dos principais canais utilizados pelos EES são as feiras e eventos locais, a utilização de loja física (Casa da economia solidária), espaços coletivos, vendas online (em baixa proporção) e parcerias com instituições e empresas. A participação em redes de economia solidária e o apoio de políticas públicas também têm contribuído para fortalecer a comercialização dos produtos dos EES. Os empreendimentos solidários também ganharam impulso a partir da criação das incubadoras de economia solidária. Estas constituem uma ação política que visa servir as classes sociais que carecem dos meios de produção, essas estruturas podem ser redefinidas, em certa medida, através dos princípios da economia solidária e possuem um papel fundamental de fornecer assessoria técnica aos EES. Muitas cooperativas e associações, ou mesmo grupos informais, surgiram a partir de ações de incubadoras, resultado de um trabalho em conjunto com essas pessoas excluídas socialmente que têm interesses nas organizações de EES (Gallo, 2000). No município de Santana do Livramento-RS a união de três instituições de ensino ? Universidade Federal do Pampa (Unipampa) campus de Santana do Livramento-RS; Universidade Estadual do Rio Grande do Sul (UERGS) campus de Santana do Livramento-RS e Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia Sul-Rio-Grandense (IFSul) campus de Santana do Livramento-RS) ? criou um projeto da incubadora de empreendimentos econômicos solidários (Bunde et al., 2022). 17 As experiências econômicas solidárias projetam-se em espaço público e visam a construção de um ambiente socialmente justo e sustentável. Diante deste cenário, a presente pesquisa buscou analisar a dinâmica pela qual os EES do município de Santana do Livramento- RS comercializam seus produtos. A pesquisa buscou também apresentar as potencialidades e dificuldades encontradas no acesso ao mercado por parte dos empreendimentos solidários. 1.1 Objetivos Nesta seção serão apresentados os objetivos, nos quais irão conduzir para o desenvolvimento deste estudo. Começando com o objetivo geral, logo em seguida os três objetivos específicos. 1.1.1 Objetivo geral Analisar a dinâmica das diferentes formas de comercialização de produtos dos Empreendimentos Econômicos Solidários (EES) no município de Santana do Livramento-RS. 1.1.2 Objetivos específicos a) Descrever a origem e desenvolvimento da economia solidária em Santana do Livramento-RS; b) Identificar as diferentes formas e a dinâmica de comercialização de produtos oriundos dos EES em Santana do Livramento-RS; c) Apontar as potencialidades e entraves encontrados no acesso ao mercado pelos EES em Santana do Livramento-RS. 1.2 Justificativa A dinâmica de comercialização dos produtos dos Empreendimentos Econômicos Solidários (EES) em Santana do Livramento, no Rio Grande do Sul, é caracterizada por estratégias que visam a valorização do trabalho coletivo, a geração de renda e a promoção da economia solidária. A forma de comercialização dos produtos dos EES em Santana do Livramento-RS envolve a participação em feiras e eventos locais, a utilização de loja física (casa da economia solidária) e espaços coletivos, a venda online (em baixa proporção) e parcerias com instituições e empresas (Bunde, 2019). O estudo sobre a dinâmica da comercialização de produtos da economia solidária em Santana do Livramento-RS é fundamental para a realização de pesquisas que podem contribuir para fortalecer a economia local, promover a inclusão social, desenvolvimento sustentável, a 18 autogestão e participação democrática dos trabalhadores, além de embasar a formulação de políticas públicas e programas de apoio aos EES. Este trabalho, além de analisar a dinâmica desse comércio no município no ano atual, busca identificar quais são os entraves encontrados pelos EES para se estabelecerem no mercado local. Também visa destacar as potencialidades dessa forma de organização econômica, demonstrando como ela pode ser benéfica para a economia e o desenvolvimento local. Dessa maneira, a atual pesquisa justifica-se pelo questionamento de entender a dinâmica pela qual essas organizações econômicas operam e vendem seus produtos na cidade, pois surgem a partir de uma exclusão social que buscam de soluções para a redução da pobreza. Nesse contexto, torna-se relevante compreender a estruturação dessas organizações dentro do município. Destarte, podemos destacar a relevante contribuição da economia solidária como forma de repensar o mercado, como afirma Culti Maria (2010), a democratização dessa economia cria estímulos para o crescimento e reduz as desigualdades através da distribuição de propriedades e renda com o princípio de igualdade na participação econômica, gera ganhos sociais amplos que possibilita o reconhecimento dos trabalhadores e reforça os espaços ocupados pelos elos comunitários. Portanto, o estudo torna-se essencial como forma de pesquisa para analisar de que maneira o mercado solidário está inserido em Santana do Livramento-RS e como é a dinâmica da comercialização dos produtos, suas principais dificuldades para se estabelecer no comércio local e suas potencialidades. A opção pelo município justifica-se pela escolha pessoal da autora, natural de Santana do Livramento-RS, numa perspectiva de interações e construções sociais. 19 2 METODOLOGIA A palavra método vem do grego methodos, formado por meta (?por meio de?) e por hodos (?via, caminho?). Usar um método é seguir, regular e ordenadamente, um caminho por meio do qual um certo objetivo é alcançado. No caso do conhecimento, é o caminho ordenado que o pensamento segue por meio de um conjunto de regras e procedimentos, com três finalidades: adquirir, demonstrar e verificar conhecimentos (Chauí, 2000). Para Gaiger (2004), a economia solidária traz uma nova forma de organização do trabalho e, portanto, das atividades econômicas a ela relacionadas. Trata-se de uma alternativa de inclusão de trabalhadores(as), capaz de gerar renda e de criar novas oportunidades de trabalho gerido de forma autogestionária pelos(as) próprios(as) trabalhadores(as). Para o autor, são inúmeras as formas de análise que podem ser adotadas para os diferentes grupos de economia solidária, pois nestes tipos de empreendimentos predomina trabalhadores(as) de baixa renda, desempregados(as) trabalhadores(as) informais ou desempregados(as) e empobrecidos(as), agricultores(as) familiares entre outros. A escolha da metodologia mais adequada irá depender dos objetivos da pesquisa, do contexto local, dos recursos disponíveis e da complexidade do fenômeno a ser estudado. No entanto, algumas metodologias que podem ser utilizadas para pesquisar a dinâmica dos mercados de economia solidária são: pesquisa documental; entrevistas; observação participante; análise de redes sociais; estudo de caso, entre outros. Na presente pesquisa, a metodologia a ser adotada será o estudo de caso, com uso de técnicas qualitativas, dando à pesquisa um caráter qualitativo. A abordagem qualitativa concentra-se na identificação de características de eventos, situações e organizações (Llewellyn; Northcott, 2007). No que diz respeito ao estudo de caso, trata-se de uma das formas de pesquisar e de, cientificamente, conhecer o outro em profundidade em sua realidade, conforme menciona Yin (2005, p. 19): os estudos de caso representam a estratégia preferida quando se colocam questões do tipo ?como? e ?por que?, quando o pesquisador tem pouco controle sobre os acontecimentos e quando o foco se encontra em fenômenos contemporâneos inseridos em algum contexto da vida real. Pádua (2004, p. 74) afirma que ?o estudo de caso trata de uma abordagem qualitativa, seja como o próprio trabalho monográfico, seja como elemento complementar em uma coleta de dados?. Tal afirmação é também corroborada por Minayo (2000) que diz que este tipo de 20 pesquisa responde a questões particulares, pois se preocupa com um nível de realidade que não pode ser quantificado. Para o autor, na pesquisa qualitativa, trabalha-se com um conjunto enorme de elementos, tais como: significados, motivos, aspirações, crenças, valores e atitudes etc., o que, de certa forma, permite um maior aprofundamento no conhecimento das relações, dos processos e dos fenômenos que não podem ser reduzidos à operacionalização das variáveis (Minayo, 2000). No estudo de caso se utiliza, geralmente, dados qualitativos, coletados a partir de eventos reais, visando explicar, explorar ou descrever fenômenos inseridos em seu próprio contexto e tem como característica ser um estudo detalhado e exaustivo de poucos, ou mesmo de um único objeto, fornecendo um conhecimento aprofundado de determinado fenômeno (Yin, 2005). Ao realizar um estudo de caso, existem algumas etapas importantes a serem seguidas, entre elas estão: Definir o objetivo do estudo de caso: nesta etapa foi determinado o propósito do estudo de caso, identificando as questões de pesquisa que foram respondidas. Ou seja, na presente pesquisa se buscou respostas para as questões propostas nos objetivos específicos; Selecionar o caso: a escolha do caso específico que foi estudado, que na presente pesquisa trata-se da dinâmica de comercialização de produtos dos Empreendimentos Econômicos Solidários (EES) no município de Santana do Livramento-RS; Coletar dados: nesta etapa reuniu-se informações relevantes para o presente estudo de caso. Isso envolveu entrevistas com os membros dos EES, observações da dinâmica de comercialização, análise de documentos (Relatórios, entre outros), revisão de literatura, busca de fontes e dados com informações sobre o caso; Nessa etapa de coleta de dados, foram realizadas entrevistas não estruturadas, conforme os métodos descritos por Berg (2001), Mack et al. (2005) e Minayo (2000). As pessoas entrevistadas são consideradas especialistas e encorajadas a expressar suas opiniões de forma espontânea sobre um determinado assunto. Durante a entrevista, o entrevistador interage com os entrevistados através de perguntas amplas relacionadas ao tema em estudo, demonstrando atenção à comunicação. No decorrer das conversas, procurei sempre perguntar aos entrevistados o que produziam, como comercializavam seus produtos e, ao final, quais eram os principais obstáculos encontrados para comercializar no mercado local e também as potencialidades que eles viam em seus empreendimentos. Foi-se necessário estabelecer um vínculo com os entrevistados para que pudesse chegar no meu objetivo final que é responder como ocorre a 21 dinâmica do comércio dos produtos oriundos dos EES em Santana do Livramento e traçar suas principais dificuldades e potencialidades, para isso se fez necessário não seguir um roteiro estruturado e sim uma conversa aberta voltada para o estudo em questão. Na casa da Economia Solidária, realizei a minha primeira entrevista em fevereiro de 2024. Visitei o local para conhecê-lo, me apresentei à coordenadora e interagi com a mesma que logo foi a minha primeira entrevistada e conheci alguns integrantes dos EES. Voltei à sede em março e abril para aprofundar os contatos e entrevistas, registrar imagens, observar e entender o funcionamento da casa. Em março, participei da Feira de Páscoa realizada pela agricultura familiar, agroindústrias e economia solidária na Rua Pref. Hugolino Andrade, no centro da cidade. Durante o evento, conduzi entrevistas com os membros dos EES vinculados à Casa da Economia Solidária e criei novos vínculos, com o propósito de mapear outros empreendimentos em Santana do Livramento. No mês de abril, também visitei a ACNH (Associação de Catadores Novo Horizonte) registrei fotografias, observei o local e coletei informações. Realizei as entrevistas com os empreendimentos da zona rural, como a agroindústria Sabores do Campo e a associação remanescente quilombola do Ibicuí da Armada, de forma remota, através do WhatsApp. Essa foi a maneira que encontrei para facilitar a comunicação com as entrevistadas, devido às dificuldades de acesso às estradas rurais entre outros. As entrevistas ocorreram entre o final de abril e o início de maio. Analisar os dados: nesta etapa se examinou os dados coletados e se realizou a identificação dos principais temas, padrões ou tendências. Desenvolver o relatório: aqui foi organizado as descobertas de forma clara e coerente. Inclui uma introdução, uma descrição do caso, a análise dos dados e as conclusões. Tirar conclusões: com base na análise dos dados, abordei as conclusões sobre o caso estudado. Identifiquei os principais insights e aprendizados obtidos; Cabe destacar que essas etapas não tiveram mudanças durante a pesquisa. Portanto, o estudo de caso buscou adaptar-se conforme as necessidades da pesquisa, mas sem alterações das etapas previstas. Conforme Eisenhardt (1989), nas pesquisas de estudo de casos não existe um padrão ou formato específico de análise de dados. Alves (1998), argumentam que a partir do momento em que os dados vão sendo coletados, o pesquisador deve ir identificando as relações existentes entre os temas e construindo interpretações que, por sua vez, vão gerando novos questionamentos e com isso aperfeiçoando as questões anteriores. Para os autores, este 22 procedimento pode levar a necessidade de se buscar novos dados, complementares ou mais específicos, testando interpretações que vão até a análise final. Na presente pesquisa, os procedimentos sobre técnicas de coletas de dados e análise das informações e/ou evidências levantadas se deram conforme síntese apresentada no quadro seguinte. 23 Quadro 1 ? Síntese dos procedimentos metodológicos e técnicas de coleta Objetivos Metodologia de Pesquisa Técnicas de Coleta Técnica de Análise de dados Objetivo Geral Dinâmica de comercialização de produtos dos Empreendimentos Econômicos Solidários (EES) no município de Santana do Livramento- RS. Estudo de caso com abordagem qualitativa. Pesquisa teórica, documental, entrevistas com pessoas chave e observação direta. Análise com base no referencial teórico. Objetivo específico 1 Descrever a origem e desenvolvimento da economia solidária em Santana do Livramento- RS. Estudo de caso com abordagem qualitativa. Pesquisa teórica em artigos científicos e relatórios já produzidos sobre o tema. Análise realizada com base no referencial teórico. Objetivo específico 2 Identificar as diferentes formas e a dinâmica de comercialização de produtos oriundos dos EES em Santana do Livramento-RS. Estudo de caso com abordagem qualitativa. Entrevistas com pessoas chave de cada EES e da Casa de Economia Solidária; Consulta a arquivos, Relatório e análise de documentos; Observação; Conversas informais e imagens (serão retiradas, após autorização, fotografias de diferentes momentos de comercialização em feiras etc.) Etapas: 1) Reprodução fundamentada das evidências coletadas; 2) Descrever detalhadamente as evidências coletadas; 3) Analisar as principais evidências com base no referencial teórico; 4) Cruzar as evidências coletadas entre os casos. Objetivo específico 3 Apontar as potencialidades e entraves encontrados no acesso ao mercado pelos EES em Santana do Livramento-RS. Estudo de caso com abordagem qualitativa. Síntese dos resultados obtidos nos objetivos específicos 1 e 2. De posse da síntese dos objetivos 1 e 2, adotaram-se estratégias de análise condizentes com o objetivo 3, problema e finalidades da pesquisa, priorizando o cruzamento das evidências com a sustentação teórica para, então, apontar as potencialidades e entraves de acesso ao mercado pelos EES em Santana do Livramento. Fonte: Elaboração própria com base em Freitas (2011). 24 3 REVISÃO BIBLIOGRÁFICA A economia solidária é um campo de estudo que engloba diferentes conceitos e abordagens, dependendo do contexto e das perspectivas teóricas adotadas. A seguir, é apresentado alguns dos principais conceitos relacionados à economia solidária. 3.1 Economia Solidária: diferentes conceitos Entre os principais autores que contribuíram significativamente para o campo da economia solidária e que serão utilizados na presente pesquisa para interpretação dos resultados estão: Luiz Inácio Gaiger; Paul Singer; José Luís Coraggio; J. L. Laville; R. Dagnino; entre outros. Esses são apenas alguns dos principais autores que contribuíram para a pesquisa e o desenvolvimento da economia solidária. É importante ressaltar que esse campo é multidisciplinar e abrange uma variedade de perspectivas teóricas e práticas. De modo preciso, o termo economia solidário foi forjado na França, através dos trabalhos de Jean-Louis Laville e Bernard Eme. Ao empregar esse termo, os autores visavam dar conta da emergência e do desenvolvimento recente de um fenômeno de proliferação de iniciativas e práticas socioeconômicas diversas (FRANÇA FILHO, 2003, p. 14). Ao longo da década de 1990, à medida que as iniciativas econômicas despontaram, no Brasil, o termo ?economia solidária? tornou-se amplamente utilizado, ganhando atenção e reconhecimento por sua natureza e suas práticas de cooperação e autogestão, ao expandir-se incluiu diferentes categorias sociais e formas organizacionais, tais como unidades informais de geração de rendimentos, associações de produtores e consumidores, sistemas de trocas locais, comunidades locais de produção e comunidades dedicadas à produção de bens, prestação de serviços, comercialização e crédito (Gaiger, 2013). Com as transformações econômicas que caracterizam o quadro social brasileiro nos anos de 1990 estão ligadas à difusão e adoção de conceitos de economia solidária no país, à crise do modelo regulatório fordista que afetou gravemente o mercado de trabalho, a alternativa a essa forma de organização industrial traz evidências para o paradigma de acumulação flexível, as consequências destes enquadramentos dos modelos de regulação do capital tiveram um forte impacto nos trabalhadores, houve encerramento de fábricas em vários setores da economia, declínio da participação industrial e no crescimento do produto nacional, aumento do desemprego, incerteza das pressões laborais sobre a desregulamentação do trabalho e mercado, entre outros (Silva, 2017). 25 A economia solidária é um modelo econômico baseado em princípios de solidariedade, cooperação, autogestão e sustentabilidade. É uma forma alternativa de organização econômica que busca superar as desigualdades sociais e promover o desenvolvimento sustentável. No contexto da economia solidária, os empreendimentos são orientados por valores como equidade, justiça social, participação democrática e respeito ao meio ambiente. Eles são geralmente formados por grupos de pessoas que se unem para criar e gerir coletivamente suas atividades econômicas, com o objetivo de atender às necessidades de seus membros e da comunidade em geral (Singer, 2000, 2002; Gaiger, 2003, 2006, 2009). Os empreendimentos solidários podem assumir diferentes formas, como cooperativas, associações, empresas autogestionárias, redes de produção e consumo, entre outras. Eles buscam promover relações mais igualitárias entre os participantes, compartilhando os benefícios e as responsabilidades de forma equitativa. Além disso, a economia solidária também busca promover a inclusão social e a geração de trabalho decente. Ela valoriza a diversidade e a valorização das habilidades e conhecimentos de cada indivíduo, buscando criar condições para que todos possam participar ativamente da economia. (Singer, 2000, 2002; Gaiger, 2003, 2006, 2009). Para os autores, a economia solidária é um modelo econômico baseado na solidariedade, cooperação, autogestão e sustentabilidade que busca promover a equidade, a inclusão social, a participação democrática e o desenvolvimento sustentável, por meio da criação de empreendimentos que valorizam a igualdade, a participação e a responsabilidade coletiva. Singer (2000; 2002), ao referir-se aos conceitos pertinentes à economia solidária, associa a ela diferentes definições teóricas e conceituais: capital social, tecnologia social, adequação sociotécnica, desenvolvimento territorial, empreendimentos autogestionários, economia da inovação, e economia criativa. A exclusão econômica e o consequente distanciamento do consumo básico, caracteriza um fator fundamental para que a sociedade fosse em busca de alternativas com capacidade de fornecer ou pelo menos minimamente responder às carências dos que estão à margem das oportunidades (Kanan, 2011). A economia solidária engloba uma diversidade de práticas econômicas e sociais que se organizam em forma de cooperativas, associações, empresas autogestionárias, redes de cooperação, entre outros. Os princípios da economia solidária são opostos ao da economia capitalista, diante disso, a economia solidária abrange diferentes ?empresas? associações voluntárias para fim de proporcionar aos seus associados benefícios econômicos. Essas organizações surgem como forma de resistência às carências do sistema dominante. A mais 26 significativa carência é a pobreza que ocasiona a falta de oportunidade na participação do processo social (Singer, 2001). Entende-se por economia solidária determinadas formas de produção, consumo e distribuição de riqueza que tem por finalidade a valorização do ser humano e não do capital, preconizando o entendimento do trabalho como um meio de libertação humana em um processo de democratização econômica, criando alternativa à dimensão alienante e assalariada das relações do trabalho capitalista. Neste sentido, tem finalidade multidimensional, pois envolve sociedade, economia, política, ecologia e cultura (Bunde, et al., 2023) Segundo Azevedo (2016), economia solidária consiste em estratégias para enfrentar o processo de exclusão social, trabalho instável e deterioração das condições de trabalho, privação de direitos dos trabalhadores, resultantes do desenvolvimento do capitalismo. Para o autor os princípios básicos deste modelo de produção é o direito à liberdade individual e a propriedade coletiva ou associada do capital, o trabalho cooperado, a autogestão e a forma de obter e de administrar o dinheiro são características dos EES, uma vez que não há ganhos de lucros e sim conquista de sobras repartidas de forma igual e proporcional a todos os trabalhadores cooperados. Os defensores da economia solidária propõem que, por meio do trabalho sustentado por esse modelo, as pessoas podem construir identidades sociais, usufruir inserção e valorização pessoal, consumir de acordo com suas necessidades e reconhecerem-se como sujeitos de sua própria existência (Kanan, 2011, p. 614). Segundo Lisboa (2002), a economia popular solidária surge a partir de organizações de setores populares, são atividades produtivas que incorporam o mercado através de sua comercialização própria, o mercado solidário, são autônomos, pequenas empresas comunitárias, agricultura familiar, trabalho doméstico, cooperativas, empresas autogestionárias que paulatinamente superam e desafiam o mercado. Gaiger (2015) constatou que, em sua maioria, os EES constituem-se em experiências dotadas de um conjunto de práticas orientadas por uma racionalidade que concilia o desempenho econômico à solidariedade. Assim sendo é necessário ressaltar que uma das originalidades da economia solidária é estar no mercado sem buscar a maximização do lucro, isso fica evidente pelo fato da prática de preços justos nos seus empreendimentos, no que tange a nova área de financiamento de crédito, a lucratividade econômica não está excluída, mas seu funcionamento é orientado pelo respeito e pelos valores éticos e humanistas. Quando uma organização econômica sacrifica a oportunidade de maximizar os lucros do ponto de vista social e ambiental, essa empresa tem 27 um comportamento solidário, dentro da troca mercantil, essa é a singularidade da economia solidária (Lisboa, 2005). 3.2 Comércio Justo, Consumo Consciente e Economia Solidária Comércio justo e consumo consciente não são consequências diretas do movimento de economia solidária, mas fazem parte e se inserem em seus preceitos, pois a economia solidária não criou o surgimento do consumo consciente e do comércio justo, eles surgiram como resultado da evolução nas relações de troca e de consumo da sociedade na busca de uma maior solidariedade e justiça, seus conceitos estão interligados aos conceitos do cooperativismo e da própria economia solidária (Carniatto, 2007). As práticas do comércio justo e solidário devem estabelecer relações entre produtores e consumidores baseadas na equidade, parceria, confiança e interesses compartilhados, perseguindo os seguintes objetivos: obter condições mais justas para grupos de produtores marginalizados, e fazer evoluir suas práticas e regras com apoio dos consumidores (Tibúrcio; Valente, 2007, p. 500). Podemos definir comércio justo e solidário como um aglomerado de práticas socioeconômicas que possibilitam criar novas alternativas de trocas e solidariedade em distintas escalas, além de promover desenvolvimento sustentável e solidário, seus mecanismos desejam incluir os custos sociais e ambientais no preço dos seus produtos que são os objetos de troca. O comércio justo e solidário visa a humanização do processo comercial, ele rechaça a ausência de transparência que o sistema dominante busca produzir acerca da origem e do conteúdo ambiental e social que os produtos que são artigos de troca no mercado, seja ele mundial, nacional ou regional. O comércio justo e solidário possui uma perceptiva onde não irá se limitar as mercadorias porque evidencia a pessoa humana (Johnson, 2004). Ademais os EES atuam como forma de resistência, também operam como uma economia que propaga reflexões, essas ponderações associadas a organização do trabalho e cuidado necessário que a sociedade atual precisa ter com as futuras gerações de tal forma que seja possível construir comportamentos onde o consumo, seja feito de forma consciente, respeitar ao próximo e expandir a distribuição das riquezas, cuidar do meio ambiente, desse modo, os EES não estão apenas ligados a fins econômicos. Oposto ao sistema capitalista, prioriza a igualdade entre seus membros, caracterizada pela autogestão, democracia nas decisões, igualdade e coletividade até mesmo no que diz respeito aos meios de produção (Nascimento, 2021). 28 Na economia solidária, a comercialização tem uma natureza diferente daquela encontrada no modelo econômico tradicional. Ela é baseada em princípios de solidariedade, cooperação e autogestão, buscando promover relações mais justas e equitativas entre produtores e consumidores. Na comercialização, os empreendimentos solidários geralmente buscam estabelecer relações diretas com os consumidores, eliminando intermediários e garantindo uma remuneração mais justa para os produtores. Isso pode ser feito por meio de feiras, mercados locais, comércio eletrônico ou outros canais de venda direta. Além disso, o respeito aos direitos trabalhistas, proteção ambiental e promoção da igualdade de gênero. Esses critérios visam garantir que os produtores sejam remunerados de forma adequada e tenham condições de vida dignas (Rego, 2014). Mance (2005), em "A revolução das redes de colaboração solidária" discute a importância das redes de colaboração solidária na economia e na sociedade e aponta a importância da colaboração entre indivíduos e organizações na busca de benefícios mútuos e no desenvolvimento sustentável. O autor destaca o papel das redes sociais e da tecnologia na facilitação dessa colaboração solidária. Barbosa (2008), em artigo intitulado "Cooperativas articuladas em rede e o mercado: o sucesso das estratégias da Cooperação Cooperativa Mondragón", publicado pelo Fórum Brasileiro de Economia Solidária (FBES), a autora aponta o sucesso da Cooperação da Cooperativa Mondragón, uma rede de cooperativas localizada na Espanha. A Cooperativa Mondragón é uma das maiores redes de cooperativas do mundo e tem sido reconhecida por sua abordagem inovadora e bem-sucedida na gestão de negócios cooperativos. A rede foi fundada em 1956 e opera em diferentes setores da economia, incluindo manufatura, varejo, finanças, educação e pesquisa. Para Egas (2017), o comércio justo ou solidário influencia a liberdade comercial em iguais condições entre os países de primeiro e terceiro mundo, proporciona a exclusão e restrições discriminatórias aos produtos que provêm de países em desenvolvimento, a começar de matérias-primas até a produção e tecnologia, impossibilitando assim o protecionismo e a discriminação, colabora para diminuir os efeitos da compulsão consumista por preços mais baratos, sem nenhuma consideração com a qualidade dos produtos e tampouco com o meio ambiente e a exploração dos trabalhadores. Portando o comércio justo e solidário enfatiza as questões humanas e éticas acima do interesse da reprodução capitalista, porém não abre mão do mercado, coloca-se presente de forma que possam surgir outros princípios, como redistribuição e reciprocidade de modo que possa orientar as trocas econômicas. A construção desses mercados defendidos pela economia 29 solidária não só é possível como já ocorrem na prática, todavia o desenvolvimento desses espaços ainda é limitado e pouco conhecido para grande parte da população (NUNES, 2011). 30 4 RESULTADOS E DISCUSSÕES 4.1 Breve Histórico Sobre a Origem e Desenvolvimento da Economia Solidária em Santana do Livramento-RS No Brasil, a economia solidária surge graças aos movimentos sociais presentes tanto no meio urbano quanto rural, nos quais diversas entidades, como organizações da sociedade civil, incubadoras universitárias e igrejas, desempenharam um papel relevante. Estes diversos grupos apoiam e fortalecem as ações comunitárias, cooperativas populares, redes de produção e comércio, feiras de economia solidária, dentre outros. As primeiras experiências de economia solidária surgiram no município de Santana do Livramento em 2005 (Luz, et al., 2016). Em 2007 foi criado o Fórum de Economia Popular Solidária Santanense, que reuniu EESs, organizações de apoio, movimentos sociais, cooperativas, redes e outros atores. Este espaço teve como objetivo promover a participação e a integração das diversas iniciativas que se baseiam em uma economia alternativa que valoriza as pessoas sobre o capital. Seu propósito era fortalecer os empreendimentos solidários, incentivar a criação de espaços públicos para a venda de produtos e serviços da economia solidária e disseminar os princípios e suas práticas dentro do município (Luz, et al., 2016). Nesse sentido, o movimento conferiu notoriedade ao tema, a cidade contou também com a união de três instituições de ensino (Universidade Federal do Pampa (Unipampa) campus de Santana do Livramento-RS; Universidade Estadual do Rio Grande do Sul (Uergs) campus de Santana do Livramento-RS e Instituto Federal Sul Rio-Grandense (IFSul) campus de Santana do Livramento-RS) que criaram o projeto de incubadoras de EES, como mencionado por Gallo (2002) as incubadoras impulsionam os EES e dessa forma pode-se afirmar que serviu para agregar, estimular e promover esse modelo de organização econômica dentro do município. Em 2012, novos empreendimentos passaram a integrar a economia solidária na cidade, foi a partir de então que se identificou a necessidade de consolidar um local para a comercialização de seus produtos e fortalecimento dos EES existentes. A partir desse momento surgiu a Casa da Economia Solidária de Santana do Livramento-RS que teve sua inauguração no dia 17 de abril 2013, tendo como objetivo fortalecer a autogestão e o empreendedorismo dos produtores, artesãos urbanos e rurais do município, através da comercialização, certificação, formação, qualificação e assessoria técnica (Luz, et al, 2016). Em síntese, Economia Solidária em Santana do Livramento-RS, cidade localizada no estado do Rio Grande do Sul, teve sua origem a partir de ações da comunidade local interessada em promover o desenvolvimento sustentável e gerar renda para a população mais vulnerável. 31 Como já mencionado por Bunde (2016), um marco importante nesse contexto foi a criação da Feira de Economia Solidária de Santana do Livramento, na praça General Osório, com apoio da prefeitura municipal e do SINDISAUDE. Em 2007, foi estabelecido o Fórum de Economia Popular Santanense e, posteriormente, foram criadas incubadoras pelos institutos de ensino da região, a seguir em 2013, a inauguração da 1ª Casa de ECOSOL do estado. Associações e cooperativas foram sendo formadas na cidade com o propósito de fortalecer a economia solidária e promover a inclusão social e econômica de seus membros. Com o apoio de diferentes entidades e organizações locais, os EES vem contribuindo para a melhoria da qualidade de vida de seus integrantes e para a promoção de uma sociedade mais justa e solidária. Dessa forma, a economia solidária vem se consolidando como uma alternativa de desenvolvimento econômico justo e sustentável para o município. No Quadro 02, é apresentado os EESs existentes no município de Santana do Livramento-RS a partir do ano de início de suas atividades. Quadro 02 ? Número de Empreendimentos Econômicos Solidários existentes no município de Santana do Livramento-RS em 2024 Empreendimento Ano de Início das Atividades Localização Urbana ou Rural Casa da Economia Solidária 2013 Urbano Associação Teares do Sul 2016 Urbano Grupo Legado 2018 Urbano Saboaria da Ecosol 2023 Urbano Mulher que Faz 2010 Urbano Associação de Catadores Novo Horizonte 2014 Urbano Agroindústria Sabores do Campo 2023 Rural Associação Remanescente do Ibicuí da Armada 2009 Rural Fonte: Elaboração própria a partir de informações obtidas em relatórios e entrevistas. 32 4.2 Diferentes formas e a dinâmica de comercialização de produtos oriundos dos EES em Santana do Livramento-RS As observações e entrevistas tiveram início com as visitas realizadas à Casa da Economia Solidária. Inicialmente, dirigi-me ao local para conhecer de perto a atuação da casa no município e fui gentilmente recebida pela coordenadora responsável, que prontamente esclareceu minhas dúvidas. Em uma segunda ocasião, retornei à casa, que é administrada de forma coletiva pelas pessoas envolvidas em seus empreendimentos. Busquei dialogar com cada integrante de um empreendimento vinculado à casa e, também, conversei com a coordenadora que me ajudava a estabelecer contato com os demais participantes. Foram realizadas três visitas à casa da economia solidária, sendo que participei da feira de Páscoa que aconteceu na Rua Pref. Hugolino Andrade, 349 - Centro, Santana do Livramento- RS, no dia 28 de março de 2024. Durante o evento, tive a oportunidade de interagir com os feirantes locais que representavam alguns dos empreendimentos solidários. Além disso, mantive conversas informais e realizei pesquisas para coletar informações sobre outros empreendimentos não vinculados à casa da economia solidária. Esses dados foram essenciais para, posteriormente, questionar integrantes de cada empreendimento solidário externo à casa da economia solidária. No quadro seguinte, são descritas as principais atividades e as diferentes formas de comercialização identificadas durante as diferentes etapas da pesquisa nos EES do município. 33 Quadro 03 ? Características dos Empreendimentos Econômicos Solidários de Santana do Livramento-RS em 2024 Empreendimento Ano de Início das Atividades Formação Atual Principais Produtos Comercializados Locais de Comercialização Casa da Economia Solidária 2013 Formada por empreendimentos econômicos Artesanato; Produtos Alimentícios; Fabricação de roupas de lã. Localização e comercialização em Zona Urbana: ? Casa da Economia Solidária; ? Feiras. Associação Teares do Sul 2016 5 integrantes Peças em lã; Localização e comercialização em Zona Urbana: ? Casa da Economia Solidária; ? Feiras. Grupo Legado 2018 3 integrantes Geleias; molhos; doces, e; eventualmente pães. Localização e comercialização em Zona Urbana: ? Casa da Economia Solidária; ? Feiras; ? Vendas particulares. Saboaria da Ecosol 2023 5 Integrantes Sabonetes naturais. Localização e comercialização em Zona Urbana: ? Casa da Economia Solidária; ? Feiras. Mulher que Faz 2010 5 integrantes Tricô; crochê; pintura em tecido; artesanato, e; bordado. Localização e comercialização em Zona Urbana: ? Casa da Economia Solidária; ? Feiras. Associação de Catadores Novo Horizonte 2014 10 integrantes Materiais recicláveis Localização em Zona Urbana com comercialização no município de Alegrete-RS. Agroindústria Sabores do Campo 2023 10 famílias Produção de queijo branco; queijo temperado, e; iogurte. Localização na Zona Rural e comercialização via: ? Chamadas públicas (municipal e estadual); ? Feiras; ? Encomendas. Associação Remanescente do Ibicuí da Armada 2009 36 famílias Pecuária familiar; apicultura; pães; doces, e; hortaliças. Localização na Zona Rural e comercialização via: ? Interna: dentro da Comunidade; ? Encomendas; ? Feiras. Fonte: Elaboração própria a partir de informações de relatórios. 34 4.2.1 Casa da Economia Solidária A Casa da Economia Solidária está localizada na Rua Rivadávia Corrêa, n.º 60, foi inaugurada em abril de 2013. Seu objetivo principal é fomentar a economia solidária no município por meio de formações contínuas para empreendimentos existentes e para criação de novos empreendimentos, por meio de parcerias com instituições e órgãos que trabalham com economia solidária. Além disso, a casa também funciona como um ponto de comercialização de produtos de diversos EES. A casa da economia solidária é filiada à Unisol (Central de Cooperativas de Empreendimentos de Economia Solidária), que mediante emendas parlamentares, conseguem formações, qualificações e equipamentos para os EES. O local serve também como ponto de vendas para Justa Trama, uma cadeia de produção que inicia com o cultivo de algodão agroecológico e realiza a confecção e venda de roupas feitas a partir desse algodão. A Justa Trama se destaca como uma das maiores cadeias de produção no setor de confecção da Economia Solidária e a Casa da Economia Solidária é um dos pontos de venda desses produtos. A Casa da Economia Solidária é autogestionada por um grupo de coordenadoras que servem como base para quatro EES, são eles: Teares do Sul; Legado; Saboaria da Ecosol e Mulher Que Faz. O espaço funciona como ponto de comercialização de segunda a sexta-feira, das 09h às 18h. Diariamente, há membros dos empreendimentos e coordenadoras presentes na casa para atender os visitantes e os consumidores. Ou seja, a Casa atua como uma loja física de vendas para os produtos dos empreendimentos solidários. Como forma de comercializar os produtos dos EES e promover os próprios empreendimentos participam de diferentes feiras, como a feira da agricultura familiar, economia solidária e agroindústrias 2 . O objetivo desta feira é a venda de itens provenientes da agricultura familiar e da economia solidária, promovendo e enfatizando as atividades associativas, cooperativas e artesanais, com foco especial nos produtos locais. A Casa também organiza feiras na frente de sua sede para a venda de produtos dos EES a ela vinculada. Além disso, participam de duas feiras importantes no estado do Rio Grande do Sul: Feira Internacional do Cooperativismo e da Economia Solidária (FEICOOP), que normalmente acontece anualmente no mês de julho, no Centro de Referência em Economia Solidária Dom Ivo Lorscheiter, na cidade de Santa Maria-RS, que em 2024 chega a sua 30ª edição; e a Feira Estadual de Economia Popular Solidária, que acontece anualmente, no Largo 2 Feira de rua realizada no centro do município, na Rua Prefeito Hugolino Andrade, nº 349, desde 2016. Atualmente, a feira ocorre em todas às sextas-feiras das 08h da manhã às 13h da tarde. Nota nossa. 35 Glênio Peres, Centro Histórico de Porto Alegre-RS, no mês de dezembro. Sempre que possível, também participam de eventos e feiras locais do município. Como já foi mencionado anteriormente, a Casa da Economia Solidária atua como uma loja física que comercializa produtos oriundos de EES. Nas figuras 01 e 02, pode-se observar a entrada da sede: Figura 01 ? Entrada da Casa de Economia Solidária Figura 02 ? Fachada da Casa de Economia Solidária na Rua Rivadávia Corrêa Fonte: Acervo pessoal (2024). Fonte: Acervo pessoal (2024). Já nas figuras a seguir, alguns dos produtos produzidos e disponibilizados para comercialização pela Casa de Economia Solidária: Figura 03 ? Artesanatos produzidos pelo Empreendimento Mulher que Faz disponíveis para venda Fonte: Acervo pessoal (2024). 36 Figura 04 ? Artesanatos confeccionados pelo Empreendimento Mulher que Faz Fonte: Acervo pessoal (2024). Figura 05 ? Produtos do Empreendimento Justa Trama disponíveis para a venda na Casa de Economia Solidária Figura 06 ? Produtos confeccionados pelo Empreendimento Mulher que Faz disponíveis para venda Fonte: Acervo pessoal (2024). Fonte: Acervo pessoal (2024). 4.2.2 Associação Teares do Sul Iniciaram suas atividades no ano de 2016, atualmente sua formação atual é composta por cinco integrantes. O EES desenvolve trabalhos com lã, executam todo processo, compram a lã já lavada, fazem a fiação e tecelagem e, atualmente, também estão fazendo o tingimento natural da fibra a partir do uso de frutas e cascas. Ou seja, realizam o tingimento natural. Entre as peças de artesanato produzidas estão peças em lã como ponchos, coletes, tapetes etc. O modo de venda acontece diretamente ao consumidor, sem intermediários. O ponto fixo de comercialização é na Casa da Economia Solidária, também participam de feiras, como 37 (FEICOOP), e a Feira Estadual de Economia Popular Solidária, além disso as feiras locais onde colocam seus produtos para venda. Conforme a entrevistada, que é membro da diretoria da casa, o principal obstáculo na comercialização são as "pessoas" que não dão valor aos produtos locais. Para ela, essa é uma questão cultural, especialmente por ser uma cidade de fronteira onde parece que apenas produtos importados são apreciados. Isso fica evidente quando comparado com feiras de outras cidades, onde há alta demanda pelas mercadorias produzidas de forma artesanal. Segundo outra entrevistada que é integrante do empreendimento Teares do sul, no festival binacional de enogastronomia realizado anualmente na fronteira, as vendas são positivas e na sua percepção, isso ocorre porque há muitos turistas que vêm prestigiar o evento e buscam adquirir os produtos locais. Quando perguntado sobre as potencialidades, as entrevistadas, integrantes do EES responderam que o produto de lã apresenta uma longa durabilidade, é fruto de um esforço coletivo, trabalho em conjunto e o empreendimento conta com a inclusão de duas pessoas com deficiências. Todos colaboram na elaboração do produto, ocorrem trocas e cada peça carrega consigo uma história única, nenhuma é idêntica à outra, sendo todo o processo realizado de forma manual, totalmente artesanal. Figura 07 ? Produtos do Empreendimento Teares do Sul no Evento Binacional de Enogastronomia em Santana do Livramento-RS (2023) Figura 08 ? Produtos do Teares do Sul expostos na Casa da Economia Solidária disponíveis para venda Fonte: Acervo próprio do EES Teares do Sul (2023). Fonte: Acervo pessoal (2024). 4.2.3 Grupo Legado Fundado em junho de 2018, este EES é composto por 3 integrantes. Atualmente, produzem geleias, licores, doces e, eventualmente, pães. Comercializam seus produtos na Casa da Economia Solidária, nas feiras e por meio de vendas a particulares feitas mediante 38 encomendas. Este empreendimento vende seus produtos diretamente aos consumidores, ou seja, sem a presença de intermediários. Como principais entraves foi apontado pelos integrantes o fato de que os comércios do município não aceitam os produtos por serem artesanais produzidos por Microempreendedores Individuais (MEI). Isto gera o desinteresse dos comércios locais, visto que não possuem nenhum interesse de comprar de um ?pequeno?. Para a entrevistada, isso atrapalha bastante a comercialização para os comércios locais, ademais, foi citado o desinteresse do poder público, na visão da entrevistada, em outros anos o município proporcionava mais feiras e eventos nos quais possibilitava o comércio dos produtos produzidos pelos EES. Figura 09 ? Geleias e molhos prontos para comercialização disponíveis na casa da economia solidária, produzidos pelo EES Legado Figura 10 ? Produtos do EES Legado disponíveis para venda na Feira da Agricultura Familiar, Agroindústrias e Economia Solidária Fonte: Acervo pessoal (2024). Fonte: Acervo pessoal (2024). 4.2.4 Saboaria da Ecosol Fundada em outubro de 2023, a EES é composta por cinco integrantes que produzem sabonetes com produtos naturais. Comercializam seus produtos na Casa da Economia Solidária e em feiras que a casa participa. Por ser um empreendimento recente, as participantes ainda não têm total clareza sobre os obstáculos encontrados no mercado para a comercialização dos produtos produzidos. Elas estiveram presentes em algumas feiras junto a Casa da Economia Solidária e conseguiram realizar vendas. Entre as vantagens destacadas, foi mencionado que o produto é considerado "diferenciado". Segundo uma das entrevistadas, o produto é destinado 39 aos cuidados da pele, não compromete a saúde por ser natural e orgânico, e ainda contribui para o meio ambiente através da reciclagem do azeite. Figura 11 ? Produtos produzidos pelo EES Saboaria da Ecosol Fonte: Acervo pessoal (2024). Figura 12 ? Produtos produzidos pelo EES Saboaria da Ecosol expostos na Feira da Agricultura Familiar, Agroindústrias e Economia Solidária Fonte: Acervo pessoal (2024). 4.2.5 Mulher que Faz Fundada em 2010, o EES Mulher que Faz trabalha com tricô, crochê, pintura em tecido, artesanato e bordado. Atualmente é composto por cinco integrantes. A forma de comercialização como ponto fixo é a Casa da Economia Solidária, participam de feiras como a FEICOOP na cidade de Santa Maria-RS e na Feira Estadual de Economia Popular Solidária de Porto Alegre-RS, além de feiras e eventos locais. Quando perguntado sobre os entraves e potencialidades, da mesma forma, foi citado pelas integrantes a questão cultural das pessoas que vivem no município de Santana do 40 Livramento que ?não valorizarem os produtos elaborados de forma artesanal?. Além disso, relataram que acreditam que as pessoas da cidade não têm o costume de consumir produtos locais, pelas suas percepções ao se tratar de uma fronteira a sensação que tinham é que somente os importados tinham valores para a maioria da população. Como potencialidades, foram citados o trabalho coletivo e as oportunidades que os EES promovem para os integrantes ingressarem no mercado por meio das feiras e vendas na casa, bem como para a aquisição de renda por meio dos produtos desenvolvidos e comercializados. Figura 13 ? Participação na Feira Estadual de Economia Popular Solidária, Porto Alegre-RS Figura 14 ? Artesanatos confeccionados na casa da economia solidária em Santana do Livramento-RS Fonte: Facebook. 05 dez. 2022. Disponível em: https://www.facebook.com/photo/?fbid=458440116 478970&set=pcb.458440153145633. Acesso em 13 jun. 2024. Fonte: Acervo pessoal (2024). 41 Figura 15 ? Participação da Casa de Economia Solidária na Feira Estadual de Economia Popular Solidária de Porto Alegre-RS Figura 16 ? Participação da Casa de Economia Solidária na Feira Internacional do Cooperativismo e da Economia Solidária (FEICOOP) em Santa Maria-RS Fonte: Facebook. 05 dez. 2022. Disponível em: https://www.facebook.com/photo?fbid=458439859 812329&set=pcb.458440153145633. Acesso em 13 jun. 2024. Fonte: Facebook. 15 jul. 2022. Disponível em: https://www.facebook.com/photo/?fbid=193768262 9770495&set=pcb.1937682986437126. Acesso em 13 jun. 2024. Figura 17 ? Participação da Casa de Economia Solidária na feira (FEICOOP) em Santa Maria-RS Figura 18 ? Participação da Casa de Economia Solidária na feira (FEICOOP) em Santa Maria-RS Fonte: Facebook. 15 jul. 2022. Disponível em: https://www.facebook.com/photo/?fbid=19376825464 37170&set=pcb.1937682986437126. Acesso em 13 jun. 2024. Fonte: Facebook. 15 jul. 2022. Disponível em: https://www.facebook.com/photo/?fbid=193768 2866437138&set=pcb.1937682986437126. Acesso em 13 jun. 2024. 4.2.6 Agroindústria Sabores do Campo A Agroindústria Sabores do Campo está localizada na zona rural do município, no Assentamento Liberdade na localidade Cerro dos Munhoz, sendo composta por 10 famílias que se uniram para trabalhar em conjunto. Em tese, a agroindústria foi inaugurada em 2023, porém 42 seus integrantes já comercializavam anteriormente seus produtos de forma artesanal. Em 2023, para legalizar e facilitar as vendas no centro urbano da cidade, foi criada a agroindústria que iniciou a produção de queijos e laticínios pasteurizados com selo de verificação. A principal atividade da agroindústria é a produção de queijo branco, queijo temperado e iogurte. O empreendimento comercializa seus produtos de forma direta aos consumidores mediante encomendas, participa de feiras, mas também vende para uma rede de supermercado na cidade. Durante o período de Pandemia da Covid-19, devido a não realização de feiras, o EES criou grupos no WhatsApp para conectar-se com seus clientes e comercializar os produtos no município e na cidade de Rivera- UY ? que faz fronteira com Santana do Livramento-RS. Atualmente, participam da feira da Cuaró na cidade de Rivera- UY, cuja feira é tradicionalmente realizada aos domingos. Uma das participantes é encarregada de comercializar os produtos e de receber encomendas provenientes do país vizinho. Em Santana do Livramento, participam da feira da Rua Pref. Hugolino Andrade e, quando há a oportunidade, em alguns eventos locais. Além disso, comercializam seus produtos por meio dos mercados institucionais, participando das chamadas públicas através do Programa de Aquisição de Alimentos (PAA), do Governo Federal. A principal dificuldade encontrada para comercializar seus produtos, segundo a entrevistada, foi conseguir vender nas feiras e fornecer para as redes de mercados da cidade. Na feira, uma vez que o preço do queijo pasteurizado precisou ser reajustado, o que encareceu um pouco o produto, acabou por dificultar as vendas inicialmente. Nas redes de mercados da cidade, os produtos não eram aceitos por alguns por serem considerados caros, outros devido à burocracia. Alguns mercados realizam a comercialização somente com empreendimentos com CNPJ (Cadastro Nacional de Pessoa Jurídica) e outros solicitaram um catálogo dos produtos para analisar antes de comercializar. Ao questionar a entrevistada sobre as potencialidades, expressou sua esperança em deixar um legado familiar para que a próxima geração possa prosseguir com a agroindústria e expandir seus produtos no mercado. Ela também destacou a importância da mulher, uma vez que as mulheres são as protagonistas neste EES e a agroindústria é uma forma de gerar emprego, renda e emancipação dessas mulheres. 43 Figura 19 ? Participação no Evento Binacional de Enogastronomia em 2023 Figura 20 ? Feira realizada na Rua Treze de Maio em 2023 Fonte: Acervo próprio do EES Agroindústria Sabores do Campo (2023). Fonte: Acervo próprio do EES Agroindústria Sabores do Campo (2023). 4.2.7 Associação Remanescente Quilombola do Ibicuí da Armada A Associação está localizada no Ibicuí da Armada, zona rural do município de Santana do Livramento-RS, a cerca de 50km do centro urbano do município. A principal atividade desenvolvida pelos membros da Associação é a apicultura e pecuária familiar, mas também possuem um pomar orgânico na comunidade, trabalham com hortas e as mulheres produzem pães e doces comercializados na comunidade local e, eventualmente, em feiras. Também fornecem produtos para uma escola municipal que está localizada próxima à sede da Associação. A comercialização também é feita diretamente aos consumidores. Para a entrevistada, a principal dificuldade enfrentada é a comercialização nas feiras locais, pois atualmente muitos produtores estão deixando de participar devido às restrições impostas pela fiscalização, que dificultam as vendas. Conforme explicado, exigem um espaço específico para a produção de pães, doces e outros alimentos, como uma cozinha industrial, e sem um registro de CNPJ não é permitida a venda de ovos, por exemplo, que são provenientes da granja da Associação. Para a integrante da Associação, estas dificuldades estão desencorajando a participação dos produtores nas feiras. Segundo relatado, essa é a principal dificuldade encontrada para comércio dos produtos dentro centro urbano do município de Santana do livramento, e como potencialidades foi citado a grandiosidade da comunidade se tratando de reconhecimento dentro e fora do município, participam de outros grupos do estado como CONAQ (Coordenação Nacional de Articulação das Comunidades Negras Rurais Quilombolas), comitê dos povos e comunidades tradicionais da pampa, entre outros. Além disso, a promoção de emprego e renda aos seus associados. 44 4.2.8 Feira da Agricultura Familiar, Agroindústrias e Economia Solidária A Feira da Agricultura Familiar, Agroindústrias e Economia Solidária é um local no qual reúne diversos EES, do campo e da cidade para venderem seus produtos diretamente aos consumidores. Localizado no centro da cidade, na Rua Hugolino Andrade nº 335, a feira é um espaço no qual são comercializados produtos oriundos da agricultura familiar, de agroindústrias e de outros EES do município. Durante a realização de uma das feiras no qual estive presente e registrei algumas imagens (figuras 23 e 24), que ocorreu no dia 28 de março de 2024, participaram cinco EES, entre os quais 3 fazem parte da Casa da Economia Solidária. Um dos EES, a Saboaria da Ecosol, comercializava no local sabonetes naturais e orgânicos; já o EES Legado, comercializava no local diversos tipos de molhos e geleias e o EES mulher que faz comercializa artesanatos. Os demais empreendimentos de agricultores familiares comercializam diversos tipos de hortaliças, queijos, ovos, entre outros. A venda dos produtos é feita diretamente aos consumidores, sem a presença de intermediários. Neste dia, 28 de março de 2024, os feirantes chegaram no local por volta das 08h30min da manhã, quando começaram a montar suas barracas para expor suas mercadorias. O local onde é realizada a feira é desprovido de infraestrutura adequada, somente uma das partes é coberta; não há nenhuma placa de sinalização que ali está ocorrendo uma feira; sendo que na frente tem uma parada de ônibus que, de certa forma, dificulta a visibilidade de quem passa pelo local. Durante o evento, o ritmo das vendas foi fraco. As compras eram pagas com dinheiro ou pix, apenas um dos empreendimentos disponibiliza aos consumidores máquina de cartão de débito e crédito. Durante a visita realizada à feira, conversei com uma das pessoas integrante de um EES que relatou que ?marcar presença na feira representa uma atitude de resistência?. Também, durante a conversa foi relatado que existe uma promessa das autoridades públicas de construir no local uma nova estrutura para trazer melhorias, tanto para os feirantes quanto para os consumidores e que, inclusive, já existem recursos financeiros, mas que o poder público local até hoje não deu andamento na obra. Ao conversar com a entrevistada, ela mencionou que alguns feirantes decidiram não mais participar da feira. Isso se deve à falta de retorno financeiro e ao risco de incorrer em prejuízos, especialmente quando lidam com produtos perecíveis e não contam com uma infraestrutura apropriada. Dessa forma, todo o esforço investido na produção, preparação e transporte dos produtos não se reflete em vendas no local. No dia 28 de março de 2024, a feira teve baixo movimento, com poucas pessoas presentes, e também pude observar que a maioria 45 dos consumidores que estavam presentes no local buscavam, principalmente, hortaliças, doces e biscoitos. Enquanto explorava o local, notei que, apesar dos desafios atuais, a Feira da Agricultura Familiar, Agroindústrias e Economia Solidária tem potencial para se tornar um agente crucial na promoção da sustentabilidade, inclusão social e no fortalecimento das comunidades locais e dos EES do município. Isso se deve ao fato de que pode impulsionar a agricultura familiar, proporcionando um espaço apropriado para os agricultores venderem diretamente seus produtos aos consumidores, sem intermediários, além disso, ajudaria a valorizar o trabalho dos produtores e das famílias assentadas pela reforma agrária. Ademais, possibilitaria que a população tivesse acesso a alimentos saudáveis, frescos, de qualidade e, muitas vezes, orgânicos, produzidos de maneira sustentável. Dessa forma, contribuiria para uma alimentação mais saudável e para a preservação do meio ambiente. Além disso, a Feira da Agricultura Familiar, Agroindústrias e Economia Solidária tem um papel central na inclusão social e na geração de renda, pois as feiras são organizadas por associações, grupos de produtores locais, ou seja, pelos EES do município. O local é um importante instrumento de fortalecimento e de estreitamento dos laços entre os EES e a comunidade local, pois nele vai se construindo relações de aproximação entre produtores e consumidores de forma colaborativa, fortalece os laços comunitários e promove a troca de conhecimentos e experiências. Além disso, estimula a diversidade cultural e a valorização da produção local, pois na feira é possível encontrar uma grande diversidade de produtos locais, muitos deles produzidos de forma artesanal, o que acaba por agregar um valor cultural. A Feira também é um espaço de resistência de agricultores familiares, assentados da reforma agrária e EES e pode vir a se tornar um importante espaço para o fortalecimento de inclusão e promoção do desenvolvimento sustentável, pois representa uma alternativa justa e solidária ao modelo de produção e consumo dominante. Por esse motivo, é importante valorizar e apoiar essas iniciativas como forma de construir uma forma de comércio mais justa e sustentável. 46 Figura 21 ? Placa colocada no local da Feira da Agricultura Familiar, Agroindústrias e Economia Solidária (2022) Figura 22 ? Cartaz de divulgação da Feira da Agricultura Familiar, Agroindústrias e Economia Solidária (2019) Fonte: Facebook. 22 jul. 2022. Disponível em: https://www.facebook.com/photo.php?fbid=4358659 78556863&set=pb.100064003936083.- 2207520000&type=3. Acesso em 13 jun. 2024. Fonte: Facebook. 08 nov. 2019. Disponível em: https://www.facebook.com/photo/?fbid=2733142113 412208&set=pb.100064003936083.-2207520000. Acesso em 13 jun. 2024. Figura 23 ? Feira da Agricultura Familiar, Agroindústrias e Economia Solidária de Santana do Livramento-RS (2024) Figura 24 ? Produtos expostos por EES do município na Feira da Agricultura Familiar, Agroindústrias e Economia Solidária (2024) Fonte: Acervo pessoal (2024). Fonte: Acervo pessoal (2024). 47 Figura 25 ? Biscoitos comercializados Feira da Agricultura Familiar, Agroindústrias e Economia Solidária de Santana do Livramento-RS (2023) Figura 26 ? Produtos alimentícios comercializados Feira da Agricultura Familiar, Agroindústrias e Economia Solidária, Santana do Livramento-RS (2019) Fonte: Facebook. 17 nov. 2023. Disponível em: https://www.facebook.com/photo.php?fbid=7746 33724680085&set=pb.100064003936083.- 2207520000&type=3. Acesso em 13 jun. 2024. Fonte: Facebook. 17 ago. 2019. Disponível em: https://www.facebook.com/agric.familiar/photos/pb.10 0064003936083.- 2207520000/2567890756604012/?type=3. Acesso em 13 jun. 2024. Figura 27 ? Produtos comercializados Feira da Agricultura Familiar, Agroindústrias e Economia Solidária, Santana do Livramento-RS (2023) Figura 28 ? Verduras e legumes comercializados Feira da Agricultura Familiar, Agroindústrias e Economia Solidária, Santana do Livramento-RS (2019) Fonte: Facebook. 17 nov. 2023. Disponível em: https://www.facebook.com/photo.php?fbid=7746 33878013403&set=pb.100064003936083.- 2207520000&type=3. Acesso em 13 jun. 2024. Fonte: Facebook. 06 jul. 2019. Disponível em: https://www.facebook.com/agric.familiar/photos/pb.10 0064003936083.- 2207520000/2493584577367964/?type=3. Acesso em 13 jun. 2024. 48 Figura 29 ? Frutas e legumes comercializados Feira da Agricultura Familiar, Agroindústrias e Economia Solidária, Santana do Livramento-RS (2017) Figura 30 ? Produtos comercializados Feira da Agricultura Familiar, Agroindústrias e Economia Solidária, Santana do Livramento-RS (2019) Fonte: Facebook. 07 nov. 2017. Disponível em: https://www.facebook.com/agric.familiar/photos/pb.10 0064003936083.- 2207520000/1675926489133781/?type=3. Acesso em 13 jun. 2024. Fonte: Facebook. 17 ago. 2019. Disponível em: https://www.facebook.com/agric.familiar/photos/ pb.100064003936083.- 2207520000/2567890419937379/?type=3. Acesso em 13 jun. 2024. 4.2.9 Associação de Catadores Novo Horizonte (ACNH) A ACNH está localizada na rua Tenente Aníbal Benevolo, SN, no bairro divisa, em uma antiga estação férrea. Inaugurado no ano de 2014, é atualmente composta por 10 integrantes. A principal atividade realizada é a coleta seletiva de materiais recicláveis. Os membros desse grupo têm uma rotina diária na qual percorrem as ruas de Santana do Livramento em busca desses materiais recolhidos em pontos fixos como supermercados da cidade, onde buscam principalmente papelão e plásticos. Nas segundas, quartas e sextas-feiras, dedicam-se a percorrer as ruas da cidade em busca dos demais materiais recicláveis, como plásticos, pets, entre outros. O horário de funcionamento da Associação é das 8h às 12h de segunda a sábado com pausa para o almoço, retornam às 14h e encerram as atividades às 18h30, aos sábados trabalham até o meio-dia. Além disso, a ACNH também recebe no local, materiais da população santanense e riverense, como papelão, garrafas pet, latinhas, entre outros tipos de materiais recicláveis. Entre os recicláveis estão o plástico branco, plástico misto, papel misto, garrafas pets branca e verdes. No galpão da ACNH é feita a separação e classificação do material e, posteriormente, prensados e embalados para serem comercializados. Após finalizado todo o processo, os materiais são vendidos para um intermediário da cidade de Alegrete-RS, que trabalha na comercialização de materiais recicláveis, que vem até 49 a cidade de Santana do Livramento-RS para comprar os materiais da ACNH, a cada quinze ou 20 dias. Atualmente, a ACNH produz em média 11 toneladas de materiais recicláveis por mês, além disso, ocorre também a venda de sucatas dentro do município, segundo a entrevistada, as sucatas são vendidas para intermediários da própria cidade e, com os recursos obtidos das vendas, compram os alimentos para os associados que é preparado no próprio local. A entrevistada também enfatizou que as sucatas não possuem grande demanda e não geram renda expressiva, mas é mais uma forma de obter algum recurso que contribui para a aquisição de alimentos que a associação oferece aos seus associados durante os intervalos de trabalho. Para a entrevistada, a principal barreira para a ACNH é a carência de infraestrutura, pois o galpão se encontra em péssimas condições, com telhas quebradas que acaba chovendo dentro do local e, muitas vezes, molhando materiais como papel e papelão. Além disto, também apontou a necessidade de EPIs (equipamentos de proteção individual) como uniformes, luvas, carrinhos, dentre outros. A falta de apoio do poder público é um dos principais obstáculos mencionado pelos entrevistados, que ressaltaram: "aqui nós nos viramos como podemos, somos nós por nós mesmo". Outro problema mencionado foi a escassez de máquinas para aumentar a produção como esteira, prensa, caminhão, carrinhos para os trabalhadores, a falta desses é um problema limitante que impede a ampliação da coleta de materiais. Como consequência, essas barreiras dificultam a coleta e a venda de uma quantidade maior de materiais recicláveis, o que, por sua vez, reduz a renda dos associados. Os membros da ACNH destacaram diversas potencialidades. Uma delas é a possibilidade de ampliar o número de associados, oferecendo assim mais oportunidades de trabalho e renda para pessoas excluídas do mercado de trabalho formal no município. Além disso, a ACNH beneficia a sociedade de Santana do Livramento - RS, ajudando na limpeza da cidade ao separar materiais recicláveis do lixo comum. As entrevistadas ressaltaram a importância da coletividade no trabalho, onde os membros da associação se ajudam mutuamente. Para os associados, a ACNH representou uma oportunidade de trabalho cooperado que garante, mesmo que modestamente, uma fonte de renda para os catadores e catadoras associados. 50 Figura 31 ? Material de divulgação da ACNH produzido com o apoio de algumas entidades Figura 32 ? Sede da ACNH no bairro Divisa, em Santana do Livramento-RS Fonte: Facebook. 06 mar. 2018. Disponível em: https://www.facebook.com/catadoresnovohorizonte/ph otos/pb.100054388905601.- 2207520000/971736379646580/?type=3&locale=pt_B R. Acesso em 13 jun. 2024. Fonte: Acervo pessoal (2024). Figura 33 ? Interior da sede da ACNH Fonte: Facebook. 22 out. 2021. Disponível em: https://www.facebook.com/catadoresnovohorizonte/photos/pb.100054388905601.- 2207520000/2042671735886367/?type=3&locale=pt_BR. Acesso em 13 jun. 2024. 51 Figura 34 ? Carregamento de material reciclável vendido pela ACNH Fonte: Facebook. 22 dez. 2021. Disponível em: https://www.facebook.com/catadoresnovohorizonte/photos/pb.100054388905601.- 2207520000/2089532387866968/?type=3&locale=pt_BR. Acesso em 13 jun. 2024. 4.2.10 As dinâmicas dos EES santanenses Ao examinarmos as várias modalidades e a dinâmica de comercialização dos produtos oriundos dos EES em Santana do Livramento-RS, mencionadas anteriormente, é possível notar que alguns EES vendem seus produtos de maneiras diversas. Alguns empreendimentos comercializam diretamente com os consumidores, sem a interferência de intermediários, com a exceção da ACNH, que vende todos os materiais recicláveis para atravessadores do município e arredores. Os empreendimentos que integram a Casa da Economia Solidária, por exemplo, seguem os mesmos padrões de comercialização. Ou seja, a Casa é o principal local de comercialização dos produtos dos EES a ela vinculada, permitindo que os consumidores visitem o local para conhecer e adquirir os diferentes produtos. Além disso, os EES vinculado a Casa, comercializam seus produtos nas feiras, especialmente na Feira da Agricultura Familiar, Agroindústrias e Economia Solidária. Mas também é de fundamental importância a participação na Feira Internacional da Economia Solidária (Feicoop), que ocorre anualmente na cidade de Santa Maria-RS, e na Feira Estadual de Economia Popular Solidária, realizada anualmente na cidade de Porto Alegre-RS. Além desses locais, em pequena quantidade, é feita a venda sob encomenda para particulares por parte de alguns EES, especialmente por parte de alguns consumidores que já conhecem os produtos. Entre os principais produtos comercializados pelos empreendimentos 52 ligados a Casa estão: artesanato diversos, roupas; geleias; molhos; sabonetes; pães; produtos alimentícios, entre outros. Diante do que foi observado, pode-se analisar que as feiras são um espaço fundamental para a comercialização dos produtos dos EES, as feiras que participam em Santa Maria e Porto Alegre, além dos eventos locais que contam com a presença de turistas. No que se refere aos produtos da agricultura familiar, analisando sua importância Troian, Aguirre e Oliveira (2023), argumentam que as feiras da agricultura familiar se tornam um importante canal de venda para os produtores locais, criando uma relação direta entre produtor e consumidor, aumentando a visibilidade dos produtores locais e incentivando o consumo de alimentos saudáveis e sustentáveis pela população. Além disso, segundo as autoras, as feiras contribuem para o fortalecimento da economia local, gerando empregos e renda para os agricultores familiares. Por esse motivo, destacam a importância das feiras da agricultura familiar como um mecanismo de promoção da agricultura sustentável e do desenvolvimento local, especialmente em contextos rurais como o de Santana do Livramento. Amorim (2011), aponta que às feiras de economia solidária são promovidas visando maximizar a venda dos produtos feitos pelos EES, destacando não só seus aspectos comerciais, mas também as perspectivas culturais que permitem revitalizar os laços entre quem produz e quem consome. Para o autor, elas incentivam a fidelização à compra de produtos e serviços e produtos provenientes da economia solidária, sendo locais amplos de trocas, compartilhamento de informações, conhecimentos, oportunidades de negócios e espaços de integração que impulsionam esse segmento econômico. Conforme as evidências coletadas, pode-se apontar que as pessoas que compram dos EES do município são aquelas que têm conhecimento desses empreendimentos e de seus produtos. De acordo com Tibúrcio e Valente (2007), o comércio solidário estabelece relações entre os produtores e os consumidores que se baseiam na confiança e nas parcerias que contribuem para a evolução das práticas dos EES. Um dos exemplos é o EES Legado, que traz essa perspectiva, pois quando a entrevistada relata que o maior público consumidor são as pessoas que já conhecem o empreendimento, pode-se dizer que já se estabeleceu uma relação de equidade entre produtor e consumidor. Bunde (2019), aponta que outro ponto importante é as parcerias que são estabelecidas que potencializam a comercialização de produtos dos EES, como, por exemplo, as parcerias construídas com as universidades e institutos federais, durante a pandemia, foi solicitado a um dos EES integrante da Casa da Economia Solidária a confecção de máscaras e de ecobags. Ou seja, a parceria com as instituições é uma forma de fortalecer o comércio de produtos dos EES no município de Santana do Livramento-RS. 53 Como exposto por Rego (2014), na presente pesquisa, fica evidente que os EES que compõem a Casa da Economia Solidária visam estabelecer uma conexão direta entre produtores e consumidores, sem a necessidade de intermediários. Essa estratégia é comumente adotada pelos EES para comercializar seus produtos. Dentro do contexto da economia solidária, também foi possível observar que os EES que fazem parte desse ambiente seguem esse modelo de comércio. Por outro lado, a situação da Associação de Catadores Novo Horizonte é distinta, pois as vendas não são realizadas diretamente, mas sim, por meio de intermediários que passam pelo município a cada 15 ou 20 dias para comprar da ACNH. A Agroindústria Sabores do Campo, também vende grande parte dos seus produtos diretamente aos consumidores. Mas, mesmo em pequenas quantidades, fornecem para alguns mercados locais. Além desses, realizam a venda por meio de mercados institucionais, como escolas e quartéis da cidade. Além dessas formas, o EES realiza venda por encomendas, realizados através da entrega diretamente aos consumidores, tanto os residentes na cidade de Santana do Livramento-RS, como os residentes na cidade de Rivera, Uruguai, feito por uma integrante que assumiu a tarefa de promover a comercialização dos produtos no país vizinho, o Uruguai. Esta forma de comercialização deu início a uma rede de vendas eficiente e direta aos consumidores. A venda diretamente aos consumidores dos produtos da Agroindústria Sabores do Campo, ocorre por meio de encomendas feitas por grupos de WhatsApp. Durante a pandemia, precisaram se adaptar para continuar a comercialização, já que as pessoas não podiam mais ir às feiras devido ao isolamento. Para contornar essa situação, os membros da agroindústria criaram grupos no WhatsApp, estabelecendo uma rede de comércio eficaz. Esta forma de comercialização facilita a construção de um elo de confiança entre produtores e os consumidores. Ou seja, a Agroindústria Sabores do Campo possui uma rede mais ampla de comercialização de seus produtos, utilizam-se de: rede local de supermercados; mercados institucionais participando de licitações públicas; feiras diversas, e vendas direta aos consumidores por meio de encomendas feitas por meio de grupos em rede social, o WhatsApp. A associação remanescente quilombola do Ibicuí da armada comercializa seus produtos dentro da própria comunidade, composta por cerca de 36 famílias, onde cada família possui em média 5 hectares de terra. Além disso, eles realizam vendas diretas para compradores de uma escola próxima à associação. Com isso, surgem encomendas feitas pelos consumidores locais aos produtores. Eles também participam de feiras na cidade, embora isso não esteja acontecendo com frequência. Adicionalmente, vendem a outros produtores que adquirem produtos da associação para revendê-los. 54 Quanto à pecuária, seis dos participantes formaram-se no curso de inseminação artificial, onde oferecem esse serviço a outros criadores. Através da Embrapa, conseguiram animais para aprimorar a genética. Na comunidade, organizam-se, unem seus rebanhos e um dos membros procura compradores. Dessa maneira, é realizada a comercialização da pecuária familiar. Gaiger (2023) descreve a cooperação como apta a alterar o impulso por trás de uma nova lógica econômica, o autor refere-se a ?uma nova racionalidade econômica? que possibilita os empreendimentos obterem resultados materiais efetivos e de ganhos extraeconômicos. Por conseguinte, é possível declarar que o comércio responsável por gerar emprego e renda está principalmente focado e estruturado dentro da própria comunidade, na associação remanescente quilombola do Ibicuí da Armada. Diante do que foi exposto, as evidências apontam para a necessidade de fortalecimento de formas de comercialização a partir de uma relação direta entre os EES produtores e os consumidores, isso criaria uma relação justa e sustentável, baseada em confiança mútua. Ou seja, há uma necessidade de fortalecer e promover o comércio justo em Santana do Livramento- RS, em especial, por meio de políticas públicas. Mendonça (2011), ao analisar as experiências e os desafios do comércio justo e da economia solidária no contexto brasileiro, destaca a importância da atuação governamental e de políticas públicas específicas para fortalecer essas práticas econômicas alternativas. O autor aponta os impactos positivos dessas iniciativas para a inclusão social, geração de renda, empoderamento dos EES e promoção de relações comerciais mais justas e sustentáveis. Ou seja, Mendonça (2011), atribui um papel fundamental do Estado e das políticas públicas na promoção do comércio justo e da economia solidária para a construção de uma economia mais justa, equitativa e solidária. Nunes (2011) diz que o comércio justo é um elemento que introduz a intersubjetividade nas relações de mercado, onde a confiança se estabelece como um fator crucial para a aproximação entre produtor e consumidor, em que o justo atua como um parâmetro compartilhado por ambas as partes, reconhecendo-se mutuamente nesse processo, produtores e consumidores. Neste processo, foi possível evidenciar a dinâmica de comercialização, especialmente entre os EESs que fazem parte da Casa da Economia Solidária e dos empreendimentos que comercializam seus produtos por meio das feiras e venda direta aos consumidores. Para Bunde (2019), em Relatório de atividades do Projeto de incubação de empreendimentos econômicos solidários (EES) na Fronteira da Paz ? Santana do Livramento- 55 RS, Chamada CNPq/MTb-SENAES n.º 27/2017, Santana do Livramento, 2019, alguns dos principais canais utilizados pelos EES eram: a) Feiras e eventos locais: os EES participam de feiras e eventos locais, como feiras de artesanato, feiras agroecológicas e eventos culturais. Esses espaços proporcionam visibilidade aos produtos dos empreendimentos, possibilitando a venda direta aos consumidores e a troca de experiências com outros empreendimentos e clientes; b) Loja e espaços coletivos: alguns EES do município vendem seus produtos na loja física, ou seja, na casa da economia solidária, onde compartilham espaços coletivos de comercialização. Essa casa é gerida de forma coletiva pelos empreendimentos, onde os produtos são expostos e comercializados; c) Vendas online: com o avanço da tecnologia, alguns EES ligados a casa de economia solidária em Santana do Livramento-RS, vem tentando adotar a venda online como estratégia de comercialização, mas ainda sem organização. Por meio de plataformas digitais, os empreendimentos poderiam divulgar e vender seus produtos para consumidores de diferentes regiões; d) Parcerias com instituições e empresas: alguns EES estabelecem parcerias com instituições públicas, privadas e empresas locais para comercializar seus produtos. Essas parcerias incluem a venda dos produtos em pontos de venda específicos, como supermercados, restaurantes, entre outros. Nesta perspectiva, é possível afirmar que a dinâmica de comercialização dos produtos oriundos dos EES em Santana do Livramento no ano de 2024 ainda segue o que foi mencionado por Bunde (2019). No entanto, as vendas online são limitadas, dado que, dentre os empreendimentos pesquisados, apenas a Agroindústria Sabores do Campo se destacou ao se reinventar durante a pandemia, criando uma rede de vendas eficaz por meio de grupos no WhatsApp. Em contrapartida, os demais empreendimentos encontram dificuldades para comercializar seus produtos nas plataformas digitais. Desta forma, conclui-se que esse tipo de estratégia de vendas ainda carece de eficiência para a maioria dos EES participantes do estudo. Como resultado da presente pesquisa, as evidências apontam para uma dinâmica de comercialização dos produtos dos EES no município de Santana do Livramento-RS, que vão de encontro com os conceitos de comércio justo, apontado por Johnson (2004); Carniatto (2007); Egas (2017); Barbosa (2023), em que o comércio justo deve ser ético, solidário, humanizador do processo comercial, sustentável, a comercialização deve ser de forma direta entre produtores e consumidores, sem intermediários. No entanto, observa-se que o comércio 56 justo ainda precisa ser ampliado, tanto no nível conceitual como por meio da organização e conscientização de consumidores. Em suma, com base nas informações coletadas sobre a dinâmica de comercialização dos produtos oriundos dos Empreendimentos Econômicos Solidários (EES) em Santana do Livramento-RS, é possível concluir que as feiras desempenham um papel crucial na promoção e venda desses produtos. As feiras locais, como a Feira da Agricultura Familiar, Agroindústrias e Economia Solidária, assim como eventos regionais como a Feira Internacional da Economia Solidária (Feicoop) em Santa Maria-RS e a Feira Estadual de Economia Popular Solidária em Porto Alegre-RS, oferecem oportunidades significativas para os EES alcançarem consumidores diretos e promoverem seus produtos de maneira sustentável e inclusiva. Além das feiras, a venda direta aos consumidores por meio de encomendas, especialmente utilizando plataformas como grupos de WhatsApp, demonstra uma adaptação eficaz durante períodos desafiadores como a pandemia, fortalecendo a confiança e a fidelização dos consumidores aos produtos dos EES. Essa estratégia não apenas amplia o alcance geográfico das vendas, como também estreita os laços entre produtores e consumidores, fundamentais para o fortalecimento da economia local e a promoção do comércio justo. Diante desse panorama, fica evidente a importância de políticas públicas que apoiem e fortaleçam essas práticas econômicas alternativas, como o comércio justo e a economia solidária. Tais iniciativas não apenas promovem a inclusão social e a geração de renda, mas também contribuem para uma economia mais equitativa e sustentável em Santana do Livramento-RS, por fim destaca-se a necessidade de continuar apoiando e ampliando essas práticas comerciais que valorizam a produção local, o consumo consciente e o desenvolvimento comunitário, alinhados aos princípios da economia solidária e do comércio justo. 4.3 Algumas Potencialidades e Alguns Entraves dos EES do Município de Santana do Livramento-RS Nesta seção, aponta-se, de forma bastante reduzida, alguns entraves e potencialidades identificadas e/ou evidenciadas durante a pesquisa. Entre os entraves para a comercialização dos produtos oriundos dos EES dentro da Casa da Economia Solidária é a falta de uma estratégia que estimule, fomente e desenvolta o comércio justo dos produtos comercializados, em especial a falta de uma plataforma digital eficiente de vendas capaz de articular os empreendimentos diretamente com os consumidores, aproximar quem produz e quem consome. Ainda é deficiente essas relações voltadas para a comercialização no município, segundo as entrevistadas. Outro fator negativo é a identificação da Casa, conforme se pode perceber nas figuras 01 e 02, o local 57 tem pouca identificação, difícil de ser localizada. Outro fator negativo é a divulgação de seus produtos que é feita somente pela rede social Facebook, no qual a Casa mantém uma página com poucos seguidores e sem uma estratégia clara de divulgação de seus produtos. Quando analisados os desafios, fica claro que todos se deparam com as mesmas questões, como a complexidade de se estabelecer no mercado, especialmente para realizar vendas diretamente aos consumidores. Em sua maioria, os entrevistados mencionam a influência da cultura dos habitantes de Santana do Livramento-RS, que não estão habituados a consumir produtos locais. Também apontam a falta de engajamento do governo municipal em apoiar medidas que estimulem a participação desses EES na economia local. E como potencialidades, os entrevistados destacaram a importância do trabalho coletivo e as oportunidades que essa forma de organização econômica possibilita o ingresso de indivíduos no mercado de maneira humanitária e responsável com o meio ambiente, geração de empregos e renda, fortalecimento das comunidades locais, diminuição das desigualdades, inovação e criatividade. Os membros da Associação de Catadores Novo Horizonte afirmam que o principal problema que enfrentam está na precária infraestrutura e na limitação de instrumentos que impede os associados de aumentarem a coleta e a produção de materiais recicláveis para a venda. Atualmente, apenas 10 carrinhos estão disponíveis para os catadores realizarem a coleta seletiva de materiais nas ruas do município, limitando assim a quantidade de materiais coletados, o que impacta diretamente na produção e, consequentemente, na renda. Ademais, há a ausência de suporte por parte do poder público que não fornece apoio à Associação, como afirmou uma das entrevistadas: "aqui somos nós por nós mesmo". Segundo a associada, a assistência que receberam veio através das junções dos institutos federais locais, por meio de seus projetos de extensão, que possibilitaram a obtenção de equipamentos como prensa, esteira e um caminhão, que atualmente está inutilizado, além de equipamentos EPIs. No entanto, em sua maioria, são os membros da associação que, por meio do esforço coletivo, lutam por seus ideais e pela sua sobrevivência. Quanto às potencialidades mencionadas, os entrevistados da ACNH destacaram a chance de realizarem um trabalho de maneira equitativa, democrática e justa. Segundo eles, os membros da Associação enfrentaram dificuldades para ingressar no mercado de trabalho capitalista e, através da associação, encontraram uma oportunidade de obter renda para seu sustento. Além disso, conforme os associados, outra potencialidade da Associação é o compromisso e os benefícios proporcionados ao meio ambiente, contribuindo para a manutenção e limpeza da cidade. 58 A agroindústria Sabores do Campo destaca-se por valorizar e empoderar as mulheres, possibilitando independência financeira e reconhecimento no cenário econômico local. Seu objetivo é deixar um legado para as futuras gerações, promovendo estabilidade e crescimento anualmente, além de buscar inclusão e equidade nos processos econômicos. No entanto, enfrenta desafios como a precariedade das estradas rurais que dificultam o transporte no município, bem como barreiras para acessar novos mercados urbanos, desestimulando seus membros a persistirem no ingresso desses mercados. Consoante a Associação Quilombola do Ibicuí da Armada, os principais desafios enfrentados estão ligados à mobilidade, uma vez que a associação ainda não dispõe de meio próprio de transporte. Isso dificulta bastante a comercialização de seus produtos e impede o alcance aos consumidores. Além disso, as estradas rurais representam uma questão relevante, assim como a fiscalização rigorosa mencionada pela entrevistada, que desanima as atividades comerciais no centro urbano da cidade. Diante disso, a associação acaba vendendo grande parte de seus produtos dentro da própria comunidade e para escolas próximas à área e através disso constrói relações entre os consumidores que demandam encomendas para a associação. Quando questionado sobre os entraves impostos pela fiscalização na cidade, a integrante explana a exigência de uma estrutura industrial adequada, como na inspeção de produtos alimentícios, algo que ainda não faz parte da realidade da associação. Como mencionado anteriormente, há a impossibilidade de vender ovos de granja por falta de CNPJ específico da granja, entre outros desafios. Em contrapartida, as potencialidades incluem a resistência da comunidade, visto que seguem na luta para conseguir um transporte próprio para a associação e ao ingresso nos mercados institucionais, o trabalho coletivo, o comércio justo, a democracia e a promoção de geração de renda para as famílias dentro da comunidade. As evidências obtidas com a pesquisa, apontam para o que alguns autores com Singer (2002; 2003); Gaiger (2003; 2015), a economia solidária apresenta diversas potencialidades que podem contribuir para uma sociedade mais justa, sustentável e democrática, pois traz potencialidades que incluem a inclusão social, de grupos historicamente marginalizados, tais como trabalhadores informais, desempregados, comunidades tradicionais, jovens e mulheres, proporcionando oportunidades de trabalho digno e geração de renda; o empoderamento e o incentivo à autogestão, a cooperação e a participação democrática, contribuindo para o fortalecimento das comunidades e dos trabalhadores, promovendo o empoderamento coletivo; a sustentabilidade, pois adotam práticas produtivas mais sustentáveis, com menor impacto ambiental, valorizando a produção local, o consumo responsável e a preservação dos recursos naturais; a redução das desigualdades econômicas e sociais, distribuindo de forma equitativa os 59 benefícios gerados pelas atividades econômicas promovendo justiça social; a articulação em rede dos empreendimentos de economia solidária buscando a cooperação e o apoio mútuo, fortalecendo laços de solidariedade e colaboração entre os diferentes atores envolvidos, e; a promoção da autonomia e da cidadania ao estimular a emancipação dos trabalhadoras e trabalhadores dando a estes uma participação ativa na vida econômica e política, fortalecendo a cidadania e a democracia. Como relata Singer (2002), a economia solidária é uma alternativa viável e, ao mesmo tempo, transformadora e fundamental para enfrentar os desafios socioeconômicos contemporâneos provocados pelo modelo capitalista de produção e de consumo que tem levado milhares de trabalhadores à exclusão. Portanto, os desafios enfrentados pelos empreendimentos de economia solidária em Santana do Livramento-RS destacam a necessidade urgente de apoio estrutural e político para viabilizar seu potencial transformador. A falta de infraestrutura adequada, a limitação de recursos e a burocracia exacerbada são obstáculos significativos. No entanto, as potencialidades desses empreendimentos, como a cooperação coletiva, a sustentabilidade ambiental e a inclusão social, oferecem um caminho promissor para promover uma economia mais justa e democrática. A articulação em rede e o apoio mútuo emergem como estratégias fundamentais para fortalecer essas iniciativas e expandir seu impacto positivo na comunidade local. Dessa maneira, é imperativo que tanto o setor público quanto a sociedade civil se engajem ativamente na criação de condições favoráveis para o crescimento sustentável e a consolidação da economia solidária como um pilar essencial do desenvolvimento socioeconômico local. 60 5 CONSIDERAÇÕES FINAIS Pela observação dos aspectos analisados acerca da dinâmica da comercialização de produtos provenientes dos empreendimentos solidários em Santana do Livramento-RS, é possível pontuar algumas considerações importantes. Na Casa da Economia Solidária e em todos os empreendimentos objeto desse estudo, os princípios que fundamentais da economia solidária são observados nas práticas exercidas pelos EES de Santana do Livramento-RS. Dentro desses espaços, os empreendimentos buscam promover a economia solidária no município e a reduzir as disparidades socioeconômicas. Tais princípios, são implementados por meio do trabalho coletivo, democrático, autogerido e sustentável. Tanto a Casa quanto os outros EES externos a ela, incluem pessoas por meio de seus cursos e projetos, atendendo aqueles que são excluídos do sistema econômico dominante, oportunizando trabalho e renda aos seus integrantes. Quanto as dinâmicas de comercialização dos produtos oriundos dos EES revelam uma diversidade de práticas adaptadas às realidades locais. O comércio dos produtos provenientes dos EES em Santana do Livramento-RS, opera principalmente por meio de vendas diretas aos consumidores, embora haja exceções, como a ACNH, que vende para intermediários. A comercialização direta, tanto na Casa da Economia Solidária que atua como uma loja física, quanto em feiras locais e estaduais e eventos, é crucial para fortalecer a relação entre produtores e consumidores. Essa participação é importante para a visibilidade e expansão dos EES. No entanto, os desafios persistem, principalmente na ampliação e na complexibilidade em se estabelecer no mercado. Todavia, é necessária uma maior articulação e divulgação para que a população local tenha consciência das potencialidades desses empreendimentos e dos produtos por eles produzidos, a fim de que possam se expandir e impulsionar o progresso nas relações diretas entre produtores e consumidores. Essas parcerias devem ser iniciadas pela administração pública local, garantindo que as informações alcancem a comunidade e possam mudar uma prática possivelmente enraizada culturalmente, conforme indicado por alguns produtores, a valorização da cultura local, do comércio e da produção é crucial para conscientizar a população e para que os EES ganhem visibilidade e reconhecimento para expandirem-se na cidade, contribuindo assim para o desenvolvimento da economia local, a geração de renda e de empregos. É necessário adotar uma nova perspectiva que promova princípios humanitários, éticos de redistribuição e reciprocidade nas transações econômicas. O objetivo é buscar um mercado 61 mais equilibrado, democrático e justo, garantindo a inclusão social e econômica de todos os participantes economicamente ativos no sistema. Outro ponto importante observado durante a pesquisa é a falta de apoio do poder público. São praticamente inexistentes as políticas públicas que objetivam potencializar a economia solidária e a comercialização de produtos advindos desses empreendimentos. Políticas públicas são fundamentais para o desenvolvimento local, geração de empregos e renda, isso fica evidente tanto para empreendimentos urbanos quanto para empreendimentos rurais. Os locais de comercialização existente, especialmente a Feira da Agricultura Familiar, Agroindústrias e Economia Solidária, carecem de infraestrutura adequada, seja para a realização de feiras ou para comercialização. Os EESs no meio rural possuem dificuldades de deslocamento para comercialização de seus produtos, dado as péssimas condições, que na maioria do ano, se encontram as estradas rurais, bem como a ausência do poder público por meio de políticas públicas que visem a melhoria e expansão desses empreendimentos. A falta de apoio do governo por meio de políticas públicas que incentivem o crescimento e aprimoramento desses negócios agrava a situação. Esses obstáculos têm um impacto direto no comércio na área urbana, juntamente com as exigências rigorosas impostas pela fiscalização, que carece da atuação governamental na criação de condições favoráveis para o desenvolvimento, venda e geração de renda localmente. Dentre os inúmeros desafios encontrados, observa-se a necessidade de recursos financeiro, falta de políticas públicas de apoio por parte da administração municipal e a necessidade de uma estrutura de network que viabilize a divulgação e comercialização dos EESs e seus produtos no município, visando uma maior conscientização da comunidade local. Dentre as potencialidades, o comércio justo e solidário, viabiliza novas maneiras de redistribuição e trocas econômicas. Em Santana do Livramento-RS, aos EESs têm potencial para expandir-se, o que poderá resultar em aumento de renda e de trabalho para a comunidade local. Se bem articuladas e com incentivos por meio de políticas públicas, é viável promover de forma mais eficaz esse modelo de comércio dentro do município. Para finalizar, indica-se a necessidade de continuidade de pesquisas futuras, seja no que se refere aos aspectos históricos da economia solidária no município, seja para criar projetos que possam desenvolver e promover a economia solidaria, os empreendimentos econômicos solidários, comércio justo e consumo consciente e consolidar essa forma de organização econômica no do município de Santana do Livramento-RS. 62 6 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ALVES, M. A. J.; GEWANDSZNAJDER, F. O método nas ciências naturais e sociais: pesquisa quantitativa e qualitativa. 2. ed. São Paulo: Pioneira, 1998. AZEVEDO, F. F.; ALIÓ, M. A.; SILVA, R. P. Espacialidade da economia solidária no Brasil. 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